O grandioso Carmín de Peumo, expressão máxima da Carménère, e a renovação que ocorre no vinho chileno

29/10/2015

 

Carmín de Peumo 2009

Apesar de abrigar algumas bodegas centenárias, o Chile só passou a chamara a atenção no mundo do vinho a partir do final dos anos 1980, quando a uva Cabernet Sauvignon passou a despontar na enologia local, agradando ao público e à crítica especializada. O lançamento do Don Melchor, da safra 1987, pela Concha y Toro é um emblema disso.

Outro capítulo importante desse novo momento dos vinhos chilenos aconteceu em meados da década seguinte. Em 1994, na Viña Carmen, um especialista francês descobriu a Carménère plantada em meio à Merlot, e por isso confundida com ela. Então, apesar de na média serem melhores os resultados de outras cepas francesas, como Cabernet Sauvignon, Syrah e Carignan, o Chile abraçou a Carménère como uva ícone do país, como estavam fazendo a Argentina com a Malbec e o Uruguai com a Tannat.

Curioso é que, entre os neófitos, a Carménère é uma casta que agrada em cheio, com seus taninos sedosos e corpo médio, macio, seus aromas de ervas, especiarias, frutas maduras e com tons achocolatados o tornam fácil de beber e de gostar. Porém, entre os enófilos mas experimentados geralmente ela não encontra muitos admiradores. Sabemos que um vinho que custa mais de R$ 500 tem a obrigação de ser muito, mas muito bom. E esse é o caso do emblemático Carmín de Peumo, um dos grandes vinhos da América do Sul, e expressão máxima desta variedade. Obra-prima do tarimbado enólogo Ignacio Recabarren encanta pela fineza, complexidade e pelo seu perfil original, intenso, terroso, vívido. As proporções variam safra a safra, mas cerca de 90% do vinho é feito com uvas provenientes de Peumo, no Vale de Cachapoal, uma das mais antigas e tradicionais zonas vinícolas do Chile. Para compor o corte são usadas aproximadamente 10% de outras variedades, do Vale do Maipo, em especial Cabernet Sauvignon. Lançado em 2006 (a safra 2003), o Carmín de Peumo chega agora ao Brasil em sua nova edição, a safra 2009, provavelmente a melhor da história ainda curta deste rótulo, um equilibrado resultado de um vinhedo especial, com dias quentes e noites frias, solo argiloso com um pouco de areia e material de rocha aluvial, drenando o excesso de água e mantendo a hidratação ideal. Com acidez precisa para equilibrar os taninos firmes e sedosos, sublinhando o frescor e as notas de especiarias e ervas. É um vinho de aroma delicado e intenso, com grafite, incenso, cogumelos, frutas negras maduras, com algo de tabaco, indo a sous bois. Nos animais já começam a surgir, mais evidentes quando tem um tempo de taça, e no final de boca, longo e agradável. É um vinho macio, cheio de nuances, muito fácil de beber e de gostar.

Realmente foi um vinho que me encantou ontem durante uma prova dos vinhos ícones da Concha y Toro, abafando o emblema maior da marca, o Don Melchor.

Na prova, provamos ainda outro vinho da companhia que marca uma nova etapa na enologia chilena. Trata-se do Marquês de Casa Concha. Mas esse movimento está em pleno andamento, e envolve um monte de gente bacana, incluindo o genial Marcelo Retamal, da De Martino; Gonzalo Guzman, da bodega El Principal, a Tarapacá, a Santa Carolina, a Santa Rita  e  outras grandes e tradicionais vinícolas do país, e toda a turma da Vigno (Vignadores de Carignan)  e do MOVI (Movimento dos Vinhateiros Independentes), o plantio de novas variedades (como a espanhola Verdejo) e a a valorização da uva País. Pode não parecer, mas tudo isso está conectado. E o fio-condutor disso tudo é a busca pela originalidade, e pelo frescor, com vinhos menos maduros e mais frescos, com mais acidez e de perfil mais gastronômico, incluindo vários produtores naturais, orgânicos e biodinâmicos, com uso moderado e até mesmo a abolição da madeira, o resgate de técnicas e equipamentos enológicos ancestrais.

Enfim, tem um monte de coisa muito interessante acontecendo por lá. E vale a pena conferir, especialmente aqueles que desenvolveram certo pavor dos vinhos chilenos. Muita coisa mudou nos últimos cinco anos. E muita coisa continua mudando.

Os novos pratos do Olympe confirmam: a casa da família Troisgros não é um restaurante francês, mas brasileiríssimo

28/10/2015

Um dos poucos restaurantes do país a conquistar uma estrela no Guia Michelin, o Olympe, embora já não seja, ainda é tratado como restaurante francês. Tanto pelo Michelin quanto pelo Guia Quatro Rodas e outras publicações relevantes. No tempo em que quem comandava a cozinha era Claude Troisgros, até que a classificação fazia algum sentido. Mas hoje, capitaneado pelo carioca Thomas Troisgros, fico difícil acreditar se tratar de um endereço francês, senão pelo sobrenome da família, e também por um foie gras aqui, e pela nomenclatura gaulesa de alguns pratos: boeuf, caille e agneau dividem espaço com pato, cherne e pargo.  Entre os clássicos do menu temos terrine de foie gras e pupunha, com rapadura e sal negro do Havaí (entrada imperdível servida com uma dose de cachaça); e codorna apelidada de FHC, recheada com farofa de cebola, bacon e passas, acelga confit com molho agridoce (prato criado em 1997 para um jantar oficial promovido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso), para não nos alongarmos muito nos exemplos. Considerando que os pratos sempre trazem ingredientes brasileiros, e que há várias receitas de massa (sim, sabemos que elas são comuns também na cozinha francesa), hoje fica difícil engolir essa história de que o Olympe é um restaurante francês. Ainda mais sob a batuta de Thomas Troisgros, que é quem dá expediente na cozinha com parede de vidro, que pode ser observada do salão. Nas minhas últimas visitas, Claude sempre apareceu no salão, que anda ficando lotado, cumprimentando a clientela, com a simpatia que o caracteriza. Mas, cá entre nós, o Olympe é hoje um restaurante tão francês quanto o Lasai, a Roberta Sudbrack, o Eleven, o Irajá, o Laguiole, o Puro e o Sá, entre tantos outros, para não alongar tanto a lista, que inclui ainda o Le Pré Catelan (o talentoso chef Rolland Villard usa técnicas francesas com ingredientes brasileiros, e o que provamos ali está mais para cozinha brasileira contemporânea, e com assinatura) e o Oro, que em breve reabre as portas no Leblon. São todos, segundo acredito, cozinhas de autor, com uma forte pegada brasileira, e um alto nível técnico.

A cada renovação de cardápio do Olympe isso fica ainda mais evidente. Pelo menos para mim.

Na semana passada voltei ao restaurante. Foi minha quarta visita este ano. Talvez a quinta. E a cada nova ida ao restaurante na casa de tijolinhos da rua Frei Leandro eu reafirmo o que venho dizendo, pelo menos, desde o começo do ano passado: a chegada de Thomas Troisgros deu novo fôlego ao Olympe, e os pratos criados por ele em parceria com o pai se mostram cada vez mais autorais, e acertados.

Os famosos biscoitos de polvilho com toque de curry brilham no couvert

Os famosos biscoitos de polvilho com toque de curry brilham no couvert

Se parte do menu vem mudando constantemente, o que é sempre bom em casas de perfil autoral, o couvert é imexível, ainda bem. Aquele biscoito de polvilho ao curry, e o pão com toque de queijo, sempre quentinho, com aquela boa manteiga, é sempre um lindo começo. Que continue assim.

Outro ícone para começar: capuccino de cogumelos

Outro ícone para começar: capuccino de cogumelos

Outro ícone da casa, que quase sempre abre a refeição como amuse bouche, é o cappuccino de cogumelos, com sabor bem equilibrado e aquela espuminha que dá uma textura leve e aerada.

Olhete curado na beterraba em crosta de quinoa: Brasil, Escandináva e Peru e perfeita comunhão. França??? Onde???

Olhete curado na beterraba em crosta de quinoa: Brasil, Escandináva e Peru e perfeita comunhão. França??? Onde???

Continuando falando de francofilia. Por exemplo. O que haveria de francês no olhete fresco curado na beterraba? O peixe vira praticamente um gravlax com linda coloração, sobre um purê do mesmo vegetal, e seus brotos, em crosta de quinoa.

Ovo, espuma de galinha, crumble de parmesão e azedinha

Ovo, espuma de galinha, crumble de parmesão e azedinha

Depois, outro acerto. Escondido sob esta espuma delicada, feita com base num caldo de galinha caipira muito do saboroso, existe um ovo perfeito com gema mole, um crumble de parmesão e um purê de azedinha, que dava acidez e vivacidade ao prato. Peguei o pão do couvert. E limpei o prato.

Palmito azedo, tucupi e queijo paulista: Brasil, Brasil e mais Brasil!

Palmito azedo, tucupi e queijo paulista: Brasil, Brasil e mais Brasil!

O prato seguinte foi uma celebração dos sabores do Brasil. Palmito azedo, fermentado com beurre blanc de tucupi (sim, isso mesmo, o caldo amazônico de mandioca brava) e um creme de queijo da Tulha, de São Paulo.

Endívia, trilha, tutano e vinho Gamay. Uma pintura, para quem gosta de sabores intensos

Endívia, trilha, tutano e vinho Gamay. Uma pintura, para quem gosta de sabores intensos

Depois, um encontro exclusivo de sabor: kimchi de acelga, trilha, tutano e “o vinho do meu avô”, conforme anunciou o chef Thomas Troisgros, ao apresentar o prato. É um prato para os que apreciam intensidade de aroma e presença na boca.

Endívia, lardo brazuca, maionese de mel de urucu: pura harmonia

Endívia, lardo brazuca, maionese de mel de urucu: pura harmonia

Em seguida, endívia na brasa com lardo (brasileiro, da fazenda Yaguara Ecológico, em Taquaritinga do Norte, PE, simplesmente incrível) com maionese de mel de uruçu.

Short rib, jiló, couve-flor e limão: impecável

Short rib, jiló, couve-flor e limão: impecável

A noite teve ainda uma das melhores carnes de toda a vida. Não só pela maciez, sabor e ponto exato do short rib de wagyu, mas também pela precisão na escolha dos acompanhamentos, pra lá de originais: um babanuj de jiló e uns pedacinhos de couve-flor no limão. Salivando só de lembrar.

A sobremesa tinha como destaque o inusitado e delicioso sorvete de manteiga com uísque

A sobremesa tinha como destaque o inusitado e delicioso sorvete de manteiga com uísque

Encerramos com terra de chocolate, com frutinhas negras e vermelhas, e um deliciosamente surreal sorvete de manteiga com uísque. Manteiga com uísque. Frutinhas ácidinhas e suculentas. Chocolate em textura crocante. E um toque de tomilho, de leve, só pra dar frescor e uma temperada no conjunto.

Com o café, um prato de petit fours, com palha italiana de doce de leite, um bombom crocante de chocolate e uma maria-mole em crosta de coco queimado. Além de um macaron. Pois foi esse docinho clássico com massa de amêndoas a única coisa que me remeteu à França durante todo o jantar. Sem falar, é claro, do sotaque do Claude, que passeou pelo salão no final da noite, cumprimentando todas as mesas.

Então vamos combinar que um restaurante com chef francês não serve cozinha francesa obrigatoriamente?

O Olympe, hoje, é um restaurante brasileiríssimo, no corpo e na alma. Com DNA francês, mas brasileiríssimo.

OLYMPE: Rua Custódio Serrão, 62, Jardim Botânico. Tel. (21) 2539-4542. http://www.claudetroisgros.com.br

Ninguém precisa reclamar que faltam restaurantes indianos no Rio: existe a casa de Rashmy Naik, no Leblon, e vale muito a pena conhecer

27/10/2015

 

Já houve um tempo em que podíamos escolher entre dois (bons) restaurantes quando dava vontade de se dedicar às especiarias, aos sabores intensos e ao perfil aromático e sedutor da cozinha indiana. Havia o Natraj, no Leblon, que fechou as portas primeiro, e o Raajmahal, em Botafogo (hoje a empresa  faz pratos e refeições sob encomenda, em eventos ou em casa: para o contato, clique aqui), que existia pelo menos até uns cinco anos atrás, quando estive lá pela última vez. Hoje já não temos mais nenhum endereço especializado nessa que é uma das mais antigas e tradicionais cozinhas de todo o mundo. Tivemos festivais isolados, como  os menus preparados pela Bindu Mathur, no Miam Miam, e sempre encontramos alguns curries por aí.

A chef indiana Rashmy Nai apresenta as suas samosas

A chef indiana Rashmy Nai apresenta as suas samosas

Pois ontem eu fui apresentado à chef indiana Rashmy Nai. Ela dá aulas e prepara jantar em sua própria residência, ou na casa dos clientes, em clubes, restaurantes etc.

O que eu posso dizer é que ela cozinha muito.

O  murgh makhani (butter chicken) foi o melhor prato da noite

O murgh makhani (butter chicken) foi o melhor prato da noite

O menu foi incrível. Destaque para o Papadam, uma massa crocante de lentilha; e para o  murgh makhani (butter chicken), muito saboroso, picante na medida para os paladares brasileiros, com admirável textura do molho, denso, rico intenso. Além do iogurte feito ali mesmo (aliás, todas as massas, dos pães e da samosa, são feitas por ela, bem como os curries e vários temperos compostos por várias especiarias. É artesanato puro).

Reservas no 97190-1146 ou no e-mail rashkish@yahoo.com. O preço varia de acordo com diversos fatores. Ontem, pra comer na casa dela, garrafinhas de água mineral incluída, pagamos R$ 120 por cabeça. Achei bem bom, diante da qualidade e da quantidade (era muita comida, e quem quiser repetia várias vezes).

 

O Donnhoff Riesling Trocken: uma boa companhia para a cozinha indiana

O Donnhoff Riesling Trocken: uma boa companhia para a cozinha indiana

Pra harmonizar, fomos de champanhe, Ferrari demi-sec, Donnhoff Riesling Trocken, Leyda Riesling, e Viña Bisquertt La Joya Gewürztraminer. Pense sempre em vinhos aromáticos, e quem sabe com algum açúcar residual. Prefira os brancos aos tintos. E o mesmo raciocínio se aplica ás cervejas. Eu iria de Wit e de IPA (melhor ainda: imperial IPA, especialmente para os curries, de frango ou cordeiro).

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Reproduzo aqui a apresentação da chef, e o menu (quem organizou a farra foi a amiga Be Augusto, que descobriu Rashmy, ajudou a compor o menu, e escreveu o texto).

Nossa anfitriã Rashmy Naik nasceu em मुंबई, Bombaim (hoje Mumbai), cidade às margens do Oceano Índico que é a capital do estado de Maharashtra.  Ela viajou por vários países acompanhando seu marido, sempre valorizando a culinária do seu país.  Rashmy está há cinco anos no Brasil e é uma referência para expatriados que querem saborear a verdadeira comida indiana.  Ela dá aulas de culinária, faz sua própria Massala e traz de fora todos os ingredientes originais, pois não acredita em condimentos que já vem prontos ou moídos.  Sua cozinha parece simples, mas é carregada das tradições e sabores da Índia.  Bel montou com ela este menu recheado de informações importantes.

MENU

Samosas: Pequenos pastéis com recheio de batatas e ervilhas. Origem: Uttar Pradesh, estado a Noroeste da Índia que faz fronteira com Nepal.

Murgh Makhani (Butter Chicken): Prato indiano de frango em molho de manteiga com tomates, alho e gengibre, delicadamente picante, com receita do restaurante Moti Mahal, em Delhi.  Este restaurante tem mais de 50 anos e foi responsável por levar os indianos a comer fora de casa, hábito que não era frequente.  Lá se mantém a tradição da cozinha Tandoori, cujo nome vem do tipo de forno utilizado.  Hoje, o Moti Mahal tem filiais em Nova Delhi, Inglaterra , Dubai e Líbano.

Pulao de Vegetais:  Versão indiana do arroz pilaf, o pulao é mencionado no Mahabharata em 400 AC

Arroz Basmati puro:  A Índia produz 65% do arroz Basmati do mundo, sendo o resto produzido no Paquistão.  Hoje s abemos que este arroz é naturalmente aromático devido à presença, nos grãos, de um raro componente perfumado, o 2-acetyl-1-pyrroline

Palak Paneer: Um clássico da cozinha vegetariana indiana, com espinafre, molho de tomate e Paneer (queijo) temperados com Garam Massala e outras especiarias. Origem: Punjab, estado do noroeste da Índia que sediou uma das mais antigas civilizações do mundo

Raita: É feito de Dahi (iogurte) com pepino e tomate.  Muito usado para equilibrar os pratos picantes com seu frescor, tem origem no Paquistão e Bangladesh

Aloo Gobi Fry: Batatas e couve flor fritos temperados com especiarias. Origem: Paquistão, Nepal e Índia.

Gajar Halwa (Carrot pudding): É feito de cenouras com redução de leite, açúcar, frutas secas e especiarias. Origem: Norte da Índia e Paquistão

 

A noite foi um acontecimento.

 

Sabores peruanos em cartaz no restaurante Pérgula, do Copacabana Palace

26/10/2015
O chef peruano Hernan Castañeda e a sua estação de ceviches, usada no almoço, até sexta

O chef peruano Hernan Castañeda e a sua estação de ceviches, usada no almoço, até sexta

Essa semana os sabores peruanos estrelam o menu do restaurante Pérgula, no Copacabana Palace. O festival começou nessa segunda, dia 26, e vai até sexta, dia 30, no almoço e no jantar. Pela segunda vez o hotel recebe o chef peruano Hernán Castañeda, e parte de sua equipe, como o padeiro David Jordan Lima e o cozinheiro Harlyn Raya Salas, do restaurante The Observatory, do Belmond Miramarflores Park, em Lima.

No almoço, o bufê (R$ 150) vai ganhar uma estação de ceviche, e vários pratos típicos do país, como, eventualmente com pitadas autorais, como tabule de quinoa com lulas grelhadas, tiraditos de peixe, polvo ao molho de azeitonas pretas e arroz com mariscos. Para a sobremesa, suspiro limeño e cheesecake com sauco.

À noite é servido um menu com três etapas (entrada, prato principal e sobremesa, por R$ 140), que começa com um ceviche. Em seguida, costelinhas de cordeiro ao molho seco com purê de feijão branco e batata calabresa ou Parihuela de frutos do mar. Para encerrar, alfajores com doce de leite e sorvete de baunilha. Para beber, Jéssica Sanchez criou uma seleção com drinques, incluindo uma soda não alcoólica de goiaba e variações de pisco sour.

 

Comer e Beber 2015: os meus votos, e suas justificativas, no prêmio da Revista Veja Rio

25/10/2015

Tive a honra, o prazer e a responsabilidade de ser jurado do prêmio o Comer & Beber 2015, da Revista Veja Rio, convidado pelo amigo Fábio Codeço.

Muitas vezes, nesses prêmios de gastronomia, a justificativa é mais importante do que o voto em si. Isso porque indicar um único lugar pode chegar a ser injusto, diante do nível de paridade que acontece em vários casos. Muitas categorias são equilibradas, muito equilibradas, e a escolha é uma questão de detalhes, e idiossincrasias.

Abaixo eu publico as minhas indicações.

Meu voto no Málaga não foi aceito. Então, fui de Amir (refleti e cheguei à conclusão de que está longe de ser barato). Depois, tentei mudar para o Lima Restobar, mas já era tarde.

Comer e Beber 2015
NOME: Bruno Agostini

OCUPAÇÃO: Jornalista

DATA: 4-9-15

 

  1. Bom e barato

VOTO: Málaga

JUSTIFICATIVA: Numa cidade com preços tão enlouquecidamente altos, o Málaga é um porto seguro. Barata a casa não é. Mas tem um custo-benefício notável. Prove os camarões flambados no salão pelo Seu Augusto, maitre dos maitres. Prove a paleta de cordeiro, o polvo a la feria. Repare nos preços da carta de vinhos. Repare no serviço atento. Repare na clientela, de empresários, políticos e outros trabalhadores da área central, público de primeira. Peça a conta e veja. O Málaga, sim, é muito bom, e quase barato. Daí meu voto.

  1. Carne

VOTO: Esplanada Grill

JUSTIFICATIVA: Temos hoje um conjunto de grandes restaurantes de carne na cidade. O Giuseppe Grill, o Pobre Juan, e novato La Cabrera, o veterano Royal Grill, além dos rodízios. A Palace, a Fogo de Chão. Mas, no quesito carne, o Esplanada Grill continua imbatível, não apenas pela alta qualidade em si dos cortes, o tempo exato de grelha, o sal bem medido, mas principalmente pela regularidade.

  1. Cozinha contemporânea

VOTO: Bazzar

JUSTIFICATIVA: O conceito de cozinha contemporânea varia conforme o tempo passa. Já foi o conceito de fusão, de cozinha molecular etc. Mas, hoje, o que há de mais contemporâneo na gastronomia é a cozinha carinhosa, sem grandes exibicionismos, com foco no ingrediente, e quanto mais local e artesanal, melhor. Há restaurantes que trabalham isso com brilhantismo, como Lasai, Sudbrack, Eleven, Laguiole, sem falar na escola francesa, que segue esses preceitos por natureza, e aí se encaixam o Olympe e Le Pré Catelan, por exemplo. E temos ainda o Fasano al Mare, cada vez melhor, com a assinatura delicada de Paolo Lavezzini. Mas o Bazzar é o mas contemporâneo de todos. Fruto da inquieta Cristiana Beltrão, que passa o ano viajando o mundo, e está sempre conectada com o que se passa em Londres, Paris, Nova York e outras metrópoles que são referências gastronômicas mundiais.

  1. Francês

VOTO: Brasserie Lapeyre

JUSTIFICATIVA: Confesso que esse foi o mais difícil dos meus votos. De cara, elimino logo dois restaurantes que são sublimes, com chefs franceses, o Olympe e o le Pré Catelan. Já votei em ambos em concursos anteriores, como melhores franceses do Rio. Mas nossos conceitos mudam. E hoje, o que espero na eleição de melhor francês é uma comida francesa. Clássica. Assim, fiquei na dúvida entre quatro lugares (seguindo a ordem de abertura das casas): Le Vin, CT Brasserie, Formidable Bistrot e Brasserie Lapeyre. A dúvida ficou entre essas duas últimas. Não só por serem as duas novidades da temporada, mas por terem aquele delicioso perfil da cozinha tradicional francesa. Mas o Formidable Bistrot tem pitadas autorais, enquanto a Brasserie Lapeyre segue a cartilha tradicionalista. E, como dizia, hoje, o que espero na eleição de melhor francês é uma comida francesa clássica.

  1. Italiano

VOTO: Fasano al mare

JUSTIFICATIVA:  Voto sempre muito difícil. A chegada de grupo Fasano ao Rio deu corpo à cozinha italiana no Rio. Corpo e elegância. Hoje temos aí umas dez casas, cada qual por suas razões, que poderia ganhar o título. Casa do Sardo, Duo, Gero, Alloro, Margutta, Satyricon, e ainda uns outros. Só que a cozinha de Paolo Lavezzinni, hoje, no Fasano al Mare, não apenas é uma das mais incríveis da cidade, mas também mantém o seu perfil italianíssimo mesmo com pitadas de autor. É cozinha italiana de primeira linha. Num lugar lindo. Com serviço impecável. Um almoço no Fasano al Mare é um acontecimento.

  1. Japonês

VOTO: Mitsuba

JUSTIFICATIVA: Tradicionalmente eu voto no Azumi no quesito japonês, pelo perfil autêntico, a cozinha japonesa em sua variada expressão, com os seus grelhados e pratos quentes em alto nível. Temos ainda o Mee, o Sushi Leblon, o Naga e o Tem kai, todos candidatos fortes ao prêmio, sempre. Porém, esse ano eu visitei o tijucano Mitsuba. E foi uma loucura. Todos os dias a casa tem 10, 12, 15 peixes frescos, resultado do trabalho incansável dos fornecedores. Com essa matéria-prima de exceção, o que experimentamos é uma seleção de sushis e sashimis sem igual na cidade. E os pratos quentes não ficam para trás. Todos os cariocas deveriam visitar o Mitsuba, ou pedir em casa, porque entregam em toda a Zona Sul.

  1. Natural

VOTO: Naturalie

JUSTIFICATIVA: A novidade já é uma razão para votarmos em um restaurante. Porque conseguir se destacar em uma categoria, logo em seu primeiro ano, é algo notável. Numa cidade com poucas opções dignas de nota na categoria (os rivais seria o Celeiro e o Universo Orgânico, ambos noLeblon), o Naturalie Bistrô seria meu candidato mesmo que a concorrência fosse forte. A chef Nathalie Passos faz uma cozinha natural, orgânica e delicadeza, com pureza e originalidade. E os pratos são lindos e leves. Quer mais¿

  1. Pizzaria

VOTO: Ferro & Farinha

JUSTIFICATIVA: Com as suas pizzas com massa de fermentação natural, as coberturas que vão de combinações clássicas a bem executadas e mirabolantes receitas, Sei Shiroma rapidamente virou um dos grandes personagens da gastronomia do Rio. Sua casa e suas pizzas são únicas, diferentes de tudo, e o amis importante: são deliciosas.

  1. Regional

VOTO: Chapéu de Couro

JUSTIFICATIVA: casa tradicional de Bonsucesso, serve as melhores receitas nordestinas do Rio. Sua carne-de-sol é imbatível, e tudo ali é farto e saboroso. Vale provar os sucos de frutas da região, densos, deliciosos.

  1. Alta Gastronomia

VOTO: Roberta Sudbrack

JUSTIFICATIVA: Com o seu jeito minimalista, sua busca incessante por ingredientes novos, que ninguém tem, com a sua técnica intuitiva, de precisão e liberdade de ação, a chef Roberta Subrack comanda o mais incrível restaurante não apenas do Rio de Janeiro, mas do Brasil. É um lugar único, que te propõe uma experiência gastronômica sensorial e emocionante, com apelo estético, equilíbrio e extrema originalidade. Comer ali é sempre surpreendente, é sempre delicioso, é sempre marcante e inesquecível.

  1. Carta de Vinhos

VOTO: Aprazível

JUSTIFICATIVA: Pedro Hermeto, sócio da casa, é um apaixonado, e ao longo dos últimos anos apurou como ninguém as cartas de bebidas do Aprazível. Tem uma ampla lista de cachaças, incluindo um rótulo próprio que é algo sublime, e outra seleção de cervejas, com mais quatro produtos exclusivos com a sua marca. Mas é na carta de vinhos que eles se destacam: o foco é nas garrafas brasileiras, de pequenos produtores, e uma seleção criteriosa de rótulos estrangeiros, com foco nos naturais, orgânicos, biodinâmicos. Praticamente só tem coisa fina ali.

  1. Sommelier

VOTO: Julieta Carrizzo

JUSTIFICATIVA: A sommélière Julieta Carrizzo não apenas está á frente de dois ótimos restaurantes, Irajá e Formidable, como também vem fazendo um trabalho brilhante em ambas. Por brilhante entenda uma escolha cuidadosa de rótulos, buscando originalidade, leveza e menos álcool, com foco em pequenos produtores, naturais, orgânicos e biodinâmicos, e umas boas escolhas verde-amarelas. Mas, além de ter elegância e descontração no serviço, de saber trabalhar as harmonizações, tanto seguindo combinações clássicas quanto propondo algumas ousadias, ela ainda tem outro trunfo que agrada em cheio ao consumidor. Faz um bom trabalho com importadores e distribuidores. E com isso consegue preços atraentes. Um sommelier não precisa ter 6.875 rótulos. Pode ter uma carta enxuta, sem vinhos em falta, com preços legais e adequados à cozinha da casa.

  1. Chef revelação

VOTO: Pedro Siqueira

JUSTIFICATIVA: Apesar de já estar no mercado há um bom tempo, com cargos altos nas cozinhas do grupo Fasano, o gaúcho Pedro Siqueira só apareceu para o público esse ano. E apareceu muito bem, com o Puro, um restaurante com DNA brasileiro e claras referências gaudérias, de perfil autoral, autêntico, com uma cozinha de alta qualidade, com pratos bem apresentados e receitas certeiras, realmente saborosas e confortáveis.

  1. Chef do ano:

VOTO: Rafa Costa e Silva

JUSTIFICATIVA: Numa cidade que tem Roberta Sudbrack, Pedro de Artagão, Paolo Lavezinni, Rolland Villard, Luca Orini, Claude (e Thomas) Troisgros, entre tantos outros craques da cozinha (como Felipe Bronze), o voto de chef do ano é sempre o mais concorrido de todos. Até porque, chef do ano não significa, em minha opinião, o melhor chef de todos. E essa comparação nem poderia ser feita. Cada um tem um estilo, e isso é o que importa, e isso é o que é bom. Porém, esse ano foi fácil escolher. Na segunda temporada de seu restaurante carioca, o Lasai, o chef Rafa Costa e Silva ainda tem um quê de novidade por aqui, ao mesmo tempo em que confirmou as altas expectativas sobre o restaurante (afinal, ele foi o número 2 na cozinha do Mugaritz, simplesmente isso). Em minhas três visitas, tudo o que comi estava impecável. Quase sempre, sublime. Muitas vezes, divino. Com originalidade e técnica, respeito aos ingredientes (muitos deles cultivados por ele mesmo) e uma boa dose de ousadia, ele vem fazendo um trabalho brilhante, valorizando ingredientes brasileiros, criando pratos com equilíbrio, elegância e beleza, mexendo com texturas e referências culinárias de várias partes, do país e do mundo.

Nunca foi tão fácil comprar os cada vez mais incríveis queijos artesanais braasileiros

24/10/2015
Uma amostra dos queijos entregues por Daniel Martins, do Queijo com Prosa

Uma amostra dos queijos entregues por Daniel Martins, do Queijo com Prosa

Nos últimos anos venho acompanhando com grande entusiasmo a revolução do queijo brasileiro, que teve no Janjão, da Casa Carandaí, um dos mais importantes atores no Rio de janeiro, quando ele começou a vender exemplares praticamente na clandestinidade, quando ainda era proibido comercializar produtos derivados de leite cru.

Queijos da Serra da Canatra distribuídos por Andre Deolindo, dos produtos D.O.C. (http://www.produtosdoc.com/)

Queijos da Serra da Canastra, do Capim Canastra, distribuídos por Andre Deolindo, dos produtos D.O.C.

Aos poucos, fui provando coisas incríveis, como os queijos de ovelha da Quinta da Pena, em Petrópolis, os vários tipos do Sítio Solidão, em Miguel Pereira, e a linha produzida pela francesa Elisabeth Schober, do Queijo com Sotaque, de Santa Catarina. Além do Azul do Bosque, do Dionísio (lavado com vinho branco) e de tantos outros. O Giramundo, por exemplo, da pequena cidade de Itapetininga (SP), da Fazenda Santa Luzia, Inspirado no queijo Reino, feito com leite cru de gado Simental com a casca pintada com beterraba. Os queijos do Capim Canastra, premiados na França. Sensacionais. Enfim, uma loucura esses queijos. Os queijos da Serra da Canastra, do Serro, da Serra do Salitre, em Minas. E o queijo Caseirinho, e suas cabaças e manteigas.

Um quarto de queijo de Araxá, entregue por Tiago Dardeau, do Clube do Queijo

Um quarto de queijo de Araxá, entregue por Tiago Dardeau, do Clube do Queijo

Numa boa. Parem de comprar brie Président, gorgonzola Boa Nata e outros queijos padronizados. Vamos valorizar a nossa produção artesanal. Hoje é fácil nos abastecermos. Encontramos esses exemplares em lojas, bares e empórios, com a Casa Carandaí, no Jardim Botânico, a Antiga Bar e Mercearia, em Botafogo, e Canastra, em Ipanema.

E nem é preciso sair de casa. O Andre Deolindo, dos Produtos D.O.C.; o Daniel Martins, do Queijo com Prosa; e o Tiago Dardeau, que vem se especializando em maturação, do Clube do Queijo, entrega em casa essas maravilhas todas.

PRODUTOS D.O.C. – (21) 3178-1498

QUEIJO COM PROSA – (21) 99754-2407

CLUBE DO QUEIJO – (21) 97902-1500

Casa das Natas: pasteis de nata divinos (incluindo versão de bacalhau), com entrega em casa

23/10/2015

As mídias sociais são uma tentação. Pelo menos nesse nosso ambiente guloso. Minha time line vive coalhada de fotos apetitosas de pessoas que eu sigo. Assim, vou me informando sobre bares, restaurantes, vinhos, cervejas, viagens e outras delícias. Há cerca de um ano o Alexandre Henriques, da Gruta de Santo Antônio, em Niterói, um dos restaurantes mais incríveis da Guanabara, postou duas fotos que me fizeram salivar copiosamente. Um bolinho de bacalhau recheado com queijo da Serra da Estrela (meu Deus do Céu!!!) quase me fez tomar a primeira barca na Praça XV pra ir até o restaurante do simpático bairro arariboia de Portugal Pequeno. Mesmo efeito teve a foto de um pastel de nata de bacalhau, coroado por um pedacinho de azeitona verde. Quase comi o celular. Por pouco não saí nadando de Ipanema rumo ao Cais de Icaraí. Contive o ímpeto faminto, e a preguiça acabou falando mais alto.

Pois essa semana eu caminhava pela Reta, em Teresópolis, procurando um lugar para comprar uma água com gás. Passo por um posto de gasolina, entre o McDonald’s e o Green Fruit, e vejo uma lojinha com tons de rosa no letreiro, destoando do ambiente escuro e sujo. Estava escrito: Casa das Natas. Vi foto de pastéis de nata. Fui conferir.

Pastel de nata, na sua versão tradicional

Pastel de nata, na sua versão tradicional

Naquela pequena portinha encontrei um tesouro. Uma estufa repleta de pasteis de nata. Os melhores que já comi desse lado do Atlântico. Não só isso, havia, ainda, versões de bacalhau, como as que eu tinha visto nas fotos da Gruta de Santo Antônio. Comprei dois de cada. E venho voltando sempre. Além da loja do posto (também tem arroz doce e caldo verde), eles também estão na Feirinha do Alto.

A versão de bacalhau é coroada por azeitona verde

A versão de bacalhau é coroada por azeitona verde

A massa apresenta uma crocância admirável. E os recheios estão no ponto exato em termos de textura e sabor. O de natas não é muito doce, e o de bacalhau acerta no sal.

E sabe o que é melhor? Eles entregam em casa. No Rio, onde está a fábrica, e em Teresópolis. Visita lá o site. http://www.casadasnatas.com.br/

Fica a minha dica. Compre os mais clarinhos. Leve para casa. E aqueça em forno alto, por uns cinco ou seis minutos (uso o meu, elétrico). Fique de olho pra não queimar, porque a potência dos fornos é muito variável. No caso do pastel de nata, quem gosta pode polvilhar um pouco de canela. Já o de bacalhau merece ser regado com azeite do bom antes de ir pro forno.

É muita alegria contida em tão pouco espaço.

 

 

 

 

Um roteiro pelas melhores feijoadas do Rio de Janeiro (lembrando que o prato nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África)

22/10/2015
Na Casa da Feijoada o prato é servido em sistema de rodízio, a R$ 62,70 por pessoa (vale a pena pedir em casa, a porção serve tr~es ou quatro)

Na Casa da Feijoada o prato é servido em sistema de rodízio, a R$ 62,70 por pessoa (vale a pena pedir em casa, a porção serve três ou quatro)

Na rotina sofrida das senzalas, os escravos ao menos comiam bem. Naqueles ambientes escuros e insalubres eles conseguiram criar o prato mais emblemático do Brasil, a feijoada. Usavam, para isso, os restos de carnes de porco salgada, dispensadas pelos senhores, cozidas com feijão preto. A história é bonita, talvez por isso tenho sido propagada por tanto tempo. Porém, por mais triste que seja dizer isso, não, a feijoada não nasceu assim. Os senhores, mesmo eles, não tinham carnes de porco sobrando. E, lamentavelmente, essa é apenas uma lenda histórica, já há muito consertada pelos estudiosos do tema. É inacreditável que, em pleno século 21, no ano de 2015, ainda exista gente que conte essa história como se fosse verdade. Pior ainda, se for um jornalista especializado no assunto. Porque ainda tem leitor que acredita, e assim essa linda mentira continua sendo perpetuada. Lamentável.

Pior ainda é dizer que a feijoada tem origem africana… Aí, meu amigo… Não, a feijoada não tem origem africana, mas europeia. É uma receita derivada de tantos ensopados preparados com feijões ou seus primos, de cores, tamanhos e formatos variados. Ao contrário do que se diz, com ingenuidade e ignorância, a feijoada não tem origem humilde, mas muito nobre. Nasceu sob a inspiração do cassoulet francês, da fabada asturiana, dos caldos ricos italianos, e, principalmente, de tantas variações de pratos afins que existem por Portugal.

Sem querer cortar o barato de ninguém, jornalista deve ser fiel aos fatos. E os fatos são esses.

É tão ridículo quanto outra teoria de um ícone brasileiro, a cachaça. Sim, há quem diga que o nome aguardente vem da dor que sentiam os escravos ao ter um pouco de pinga caindo sobre as suas costas machucadas pelo açoite. Francamente…

Os melhores lugares do Rio pra beber cachaça a gente pode deixar pra outro dia. Já das feijoadas podemos falar hoje.

As mais divertidas da cidade acontecem nas quadras das escolas de samba, que já estão fervilhando no clima pré-carnavalesco. A Portela, com as suas quituteiras de mão cheia, e seus sambistas de fino trato e grandes composições, sem dúvida é a mais emblemática no quesito (inclusive já até lançaram um livro de receitas, “Batuque na cozinha – As receitas e as histórias das tias da Portela”). Mas, tradicionalista que sou, indico ainda a Mangueira, o Império Serrano e o Salgueiro. Como as escolas fazem as feijoadas em fins de semana alternados, sempre tem alguma rolando. Na Feira das Yabás, que acontece todo o segundo domingo do mês, na Praça Paulo da Portela, em Oswaldo Cruz, as tias da Portela, incluindo Dona Neném, do alto de seus 87 anos, servem várias comidas em suas barracas, que servem refeições bacanudas por cerca de R$ 15. Marlene é famosa pela sua feijoada.

Seguramente, em nenhum restaurante ou hotel a feijoada será tão animada quanto esses da turma do samba. Nos hotéis, muitas vezes o bufê de feijoada dos sábados é servido com um conjunto, que anima o ambiente com clássicos. Já fui no Caesar Park (antes de virar Sofitel), em Ipanema, e no Sofitel, no Posto 6, em Copacabana. Achei a comida boa, e música contribuiu para a minha felicidade (raramente gosto de música ao vivo em restaurantes, como aqueles de Paraty, onde somos obrigados a jantar com um banquinho e violão tocando, mas ás vezes curto a ambiência sonora, caso dos pianos da Brasserie Lapeyre, no Centro, e da Churrascaria Palace, em Copacabana).

Servida como reza a tradição aos sábados, a feijoada do Rubaiyat Rio, no Jockey Club, tem várias bossas extras, a começar pelas corridas de cavalo, que acontecem ao longo da tarde (vale tentar uma mesa na varanda, mas evite isso nos dias muito quentes), passando pelas batidas, servidas livremente, e pelo bufê de sobremesas, tudo incluído no preço. No belo balcão de madeira que recebe os panelões com as carnes também abriga um belo leitão, além de tudo aquilo que nos habituamos a ver nos serviços de feijoada. Um caldeirão com o feijão, e vários outros com as carnes separadas, a farofa, o arroz, a couve, o torresmo e a laranja, além de complementos suínos, como linguiça, bisteca, pernil e costelinha, sem falar na banana frita.  Pelo conjunto a obra, eu diria que todo o carioca deveria fazer esse programa ao menos uma vez na vida. Como ir até o Corcovado e subir o Pão de Açúcar. Custa R$ 109, e incluindo isso tudo, está de bom tamanho.

– O que é legal é que as partes suínas são todas de baby pork da Fazenda Rubaiyat. O feijão também é supernovo, igualmente da fazenda. A feijoada tem todos os pertences separados: carne seca de Brangus, costela fresca, costela defumada, paio, língua, rabinho, pé, orelha. O Claude só vai lá por conta desses três últimos– conta um dos sócios da casa, David Zylbersztajn.

Já se vão lá mais de 20 anos que a Casa da Feijoada (na foto), em Ipanema, se converteu em um dos poucos restaurantes que também são ponto turístico da cidade. Fazendo um trabalho junto a hotéis e guias de viagem, a  Casa da Feijoada recebe muitos turistas, e não tantos cariocas assim. Besteira. Seguramente é um dos melhores lugares do Rio para se dedicar a esse prato, servido em sistema de rodízio, na mesa, com preço por pessoa (R$ 62,70).  Pra começar,  caldinho de feijão e linguiça mineira, além de batidas de limão e maracujá (também incluídas no preço). Com o feijão, são 11 opções de carnes, que podem ser encomendadas pelos clientes: bacon defumado, orelha de porco, lombo salgado, carne seca, linguiça fresca, rabo, costela salgada, língua defumada, chispe, carne de boi e paio. Os acomapanhamentos de sempre. E a sobremesa são as compotas caseiras de abóbora com coco, banana e o doce de leite. Vale pedir para a viagem. São muitas quentinhas, que servem umas três ou quatro pessoa, sendo assim de preço praticamente imbatível. Confira.

Pra minha surpresa, porém, descobri que os dois restaurantes portugueses mais tradicionais do Rio também servem admiráveis feijoadas. No Antiquarius e no Adegão Português eu como feijoadas não menos que sublimes, com toda aquela fartura que nos habituamos a ver na culinária portuguesa.

Essas são as minhas feijoadas preferidas em terras cariocas (muito aprecio a do Tempero com Arte, em Teresópolis, e do Parador Lumiar, em Nova Friburgo, ambas também aos sábados). Falam-me, ainda, maravilhas de duas feijoadas tijucanas. Do Bar do Momo e do Bar do Pavão. Nunca fui, mas diante das observações de bambas como Guilherme Studart e Gabriel Cavalcante (o da Muda), eu confio cegamente nas dicas.

Sem que a gente possa se esquecer do antológico e inigualável bolinho de feijoada do Aconchego Carioca, servido na matriz, na Praça da Bandeira, e também na filial do Leblon.

Feijoada é uma delícia, o mais brasileiro dos pratos. Mas nada tem que ver com escravos, e menos ainda com a África. Ok?

E o blog volta à ativa, ensaiando para trilhar novos e saborosos rumos a partir de 2016

22/10/2015

Depois de 15 anos trabalhando intensamente como jornalista, ainda que lidando com coisas deliciosas como viagens, comidas e bebidas (mas com plantões, cargas horárias excessivas, estresses os mais variados etc etc etc), este jornalista que vos escreve se deu ao luxo de tirar um período quase sabático neste 2015, ano muito estranho, aliás. Quase sabático porque eu não procurava trabalho, mas se ele pintasse, eu fazia. Entre outras razões, além da grana, porque se alguém encomenda algo a um free lancer, e essa pessoa diz que não pode fazer, possivelmente será esquecida em projetos futuros, abrindo espaço para alguém ocupar o seu espaço. Então, fiz um monte de coisa legal, sob encomenda. Desde algumas matérias para jornais e revistas até aulas e degustações, e a produção de um guia de vinhos e a colaboração em um livro de turismo, além dos textos de um importante prêmio de restaurantes cariocas, e outras coisinhas legais.

Mesmo com vários projetos rolando, foi um delicioso, mas esquisito, período de descanso e relaxamento. Porque me sobrou muito tempo livre, e eu andava precisando muito dele. O tal do ócio criativo, estado que – dizem – nos permite reflexões e tomadas de decisões com mais facilidade e inspiração. Decidi, por exemplo, neste pouco mais de um ano desde que deixei O Globo, nunca mais voltar a trabalhar numa redação. Poderia enumerar umas 500 razão para isso, mas resumo esse quadro em poucas palavras: hoje tenho liberdade de escrever o que quiser, na hora que quiser, e da maneira que eu quiser; e as novas tecnologias permitem que se trabalhe de casa (o trânsito do Rio está insuportável), que se faça fotos e vídeos com custo baixo e alta qualidade; além da imensa vontade de fazer coisas diferentes, que  fujam das funções jornalísticas, desde palestras, cursos e degustações (virtuais, inclusive) até produzir cervejas e queijos (vinho e cachaça, quem  sabe¿), levar grupos pequenos para viagens e passeios gastronômicos, prestar consultorias para restaurantes, bares, hotéis e afins, escrever livros de viagem e guias de restaurantes, vinhos e cervejas. Sem falar na tal da liberdade física: de poder levar a filha à escola, de viajar na baixa temporada, de acordar ao meio-dia, se quisermos.  Não quero outra vida, mas chegou a hora de arregaçar as mangas novamente.

Enfim, é só pra dizer que este blog está voltando discretamente à ativa, ensaiando para 2015, quando (espero eu) ele será transformado em site, mais abrangente, maior, com crônicas, reportagens, notas, fotos, vídeos… E, o mais importante de tudo, o foco principal deixa de ser o Rio de Janeiro, e seus restaurantes. A partir de janeiro, quando (espero eu, novamente) o site for lançado, vamos tratar principalmente de turismo (no Rio, inclusive). Mas com um recorte bem específico: a gastronomia, os vinhos, as cervejas e outras delícias que fazem uma viagem valer mesmo a pena. A melhor maneira de um viajante entender um lugar e interagir com a sua cultura é através da comida. A melhor, mais rápida e, naturalmente, a mas deliciosa. E, dentro deste site, teremos o blog Rio de Janeiro a Dezembro, nome que eu tanto gosto, esse espaço, sim, vai continuar dedicado às redondezas da Guanabara, capital e interior. Ou seja, vou reunir em um único ambiente digital o trabalho que fazia como repórter e editor assistente do Boa Viagem, como colunista da Revista (e o blog Enoteca), como inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e outros afazeres profissionais relativos a esses temas tão saborosos e cheios de histórias para contar e personagens fabulosos. Conto com a companhia de vocês.

Desde já, parceiros são bem-vindos. Parceiros de diversas naturezas. Sugestões, anúncios, comentários, patrocínios, curtidas e compartilhamentos: a gente agradece.

É isso, pessoal. Estaremos aqui provisoriamente por mais uns dois ou três meses. Depois, no endereço novo, que ainda não sei qual será.

 

Amanhã e domingo: feira Primatas 17, no Clube dos Macacos, no Horto, uma baita reunião de comidinhas

08/05/2015
A rapaziada que participa da primeira edição do Primatas 17, no Clube dos Macacos, no Horto, uma baita reunião de comidinhas. Participam Boteco Doc, Zaiber Fit Food, ribz costela truck, Doce Predileto, Café La Furgonet, Creperia Clichê, Contrabando Beer Truck, Fly 18 +, Tapí Tapioca, B Burger Gourmet, Rolando Churrinho, Las Empanadas, Polis Juicy Truck, Carioca, Rio Food Truck Bar, Romain Rio Massas e santé

A rapaziada que participa da primeira edição do Primatas 17, no Clube dos Macacos, no Horto, uma baita reunião de comidinhas. Participam Boteco Doc, Zaiber Fit Food, ribz costela truck, Doce Predileto, Café La Furgonet, Creperia Clichê, Contrabando Beer Truck, Fly 18 +, Tapí Tapioca, B Burger Gourmet, Rolando Churrinho, Las Empanadas, Polis Juicy Truck, Carioca, Rio Food Truck Bar, Romain Rio Massas e santé – FOTO DE DIVULGAÇÃO

É verdade que ainda não alcançamos a fórmula que consagrou food trucks em várias cidades do mundo, a exemplo de Nova York, emblema disso. Nossos caminhões de comida ainda carecem de lugares para estacionar, e o que há de fato são ações isoladas, geralmente em espaços privados, quase sempre nos fins de semana. Há filas intermináveis, na maioria dos casos (compre muitos tíquetes de uma vez, fica a dica). E os preços estão longe de serem amigáveis, mas deixando de ser chato, esses eventos são mesmo muito legais. Porque podemos, em um só espaço, encontrar vários chefs e muita gente legal, iguarias bem boladas, umas coisas bos pras beber, e um clima descontraído, reunindo famílias, amigos, casais, grupos grandes e pequenos, crianças, adultos e adolescentes, gente de idade mais avançadas, todos atraídos pela boa oferta de quitutes.

Neste time estão jogando chefs de primeira linha, como Roberta Sudbrack, e seu notável SudDog, Frederic de Meyer, e seus arrozes de inspiração asiática, e tanta gente bacana, como Gabriel de Carvalho, do Boteco DOC, Gueta Ridzi, na organização, Nano Ribeiro, do Samba do Trabalhador, agora na divulgação, e um pessoal de primeira linha.

Neste contexto gastronômico altamente recomendável, acontece amanhã e domingo a primeira edição do Primatas 17, no Clube dos Macacos, no Horto, uma baita reunião de comidinhas. Participam Boteco Doc, Zaiber Fit Food, ribz costela truck, Doce Predileto, Café La Furgonet, Creperia Clichê, Contrabando Beer Truck, Fly 18 +, Tapí Tapioca, B Burger Gourmet, Rolando Churrinho, Las Empanadas, Polis Juicy Truck, Carioca, Rio Food Truck Bar, Romain Rio Massas e santé.

O mais bacana da história é que o Primatas 17 tem a proposta de reunir toda a família. Serão três ambientes, com oficinas de práticas biossustentáveis, e atividades como grafite, números circenses, pinturas, tirolesa, slack line e capoeira. E muita música. Entre uma atividade e outra, as festas Rio Jazz Club, Pista Libre e Bailão do Castelo e os shows ao vivo de Mulheres de Chico, Afrojazz, Folakemi Adelakun, Pixim Bodega, entre outros, levarão muita música ao Clube dos Macacos.

O ingresso custa R$ 20 (tem meia, e há várias gratuidades, como a entrega de 1 kg de alimento não perecível, mães com filhos, ciclistas), e a parada começa às 10h.


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