Como jornalista, tenho horror a restaurantes sem site, e gostaria muito que todos mantivessem seus cardápios atualizados e com preços, o que é uma raridade aqui no Brasil, mas não na Europa e Estados Unidos.
Como frequentador de restaurantes, porém, nutro imensa simpatia por esses lugares, que parecem parados no tempo. Geralmente não é só questão de tecnologia: a decoração, o cardápio, os garçons, tudo remete a tempos idos, inclusive a presença constante do dono, controlando o caixa lá detrás do balcão, vez ou outra circulando por entre as mesas para ver se tudo corre bem.
É exatamente assim no tradicional A Marisqueira, clássica casa de peixes e frutos do mar em Copacabana, em plena Barata Ribeiro. Havia muitos anos que não comia lá. Mas não sei bem porque, outro dia me bateu uma baita vontade de ir jantar ali.
Desconfio que a vontade tenha nascido do desejo de comer um bom peixinho fresco, o que é cada vez mais difícil aqui na cidade, embora o Rio seja uma cidade litorânea. A sedução veio da memória daquela vitrine refrigerada que guarda os mais variados pescados.
Fui por duas noites seguidas. E descobri uma vantagem: ao contrário dos restaurantes badalados da cidade, é fácil para na porta (das 21h às 6h), sem ter que pagar manobrista nem nada. parei, nas duas vezes, o meu carro bem na porta.
Na primeira cheguei bem tarde, depois das 23h, após sair do fechamento, na noite de terça. Estava decidido a comer os bolinhos de bacalhau…
…e também as alheiras de Mirandela. Foi o que fiz, com imenso prazer.
Os bolinhos de bacalhau estão entre os melhores da cidade: fritos na hora, chegam quentinhos, com uma textura inacreditável, cremosa, com tempero perfeito e sabor equilibrado. Derramei azeite e pimenta, numa alegria quase incontrolável. Com aquele climão de marisqueira praiana portuguesa, como tantas na região de Matosinhos, no Porto, lembrei-me do avô, que tantas vezes ali me levou quando tinha uma padaria perto dali, coisa de 23 anos atrás.
A Marisqueira já era, aliás, à esta altura, um restaurante clássico da cidade. Tinha, porém, mais fama do que hoje em dia – quando, por mais incrível e contraditório que isso possa parecer, as pessoas “entendem” mais de comida, e buscam os restaurantes da moda, estando assim sujeitos a chefs incompetentes, preços surreais e filas. Ver fila na porta de lugares como o Venga e a Prima Bruschetteria, e salões monumentais como o d’A Mariqueira vazios me dá até calafrios, uma certa tristeza e penso, como bem escreveu hoje o Veríssimo, sobre telecatch e MMA: “Sei não, acho que empobrecemos”.
Empobrecemos de espírito, mas ficamos mais ricos. Não nos importamos em pagar mais caro para comer pior…
A Marisqueira é telecatch, a Prima Bruschetteria é MMA. Compreendeu? Grande Veríssimo!!! Mas isso é assunto para outro dia.
Só queria escrever sobre A Marisqueira.
Não é um lugar propriamente barato. Mas também não é caro (o menu completo está lá no fim do post). Considerando que muitos restaurantes desprezíveis, desses badaladinhos, chegam a cobrar mais de R$ 30 por uma porçãozinha ridícula, daquelas que precisamos comer umas dez para nos sentirmos realmente alimentados, gastar R$ 50 para jantar peixe fresco (linguado fantástico, ok?) precedido de bolinhos de bacalhau pode ser considerado uma verdadeira pechincha. E ainda tem guardanapo de pano, e eu acho insuportáveis os guardanapos de papel.
Pois na primeira noite gastei apenas R$ 25. Foram R$ 10 da meia porção do bolinho de bacalhau maravilhoso, e outros R$ 15 de uma alheira de Mirandela louvável, saborosa e com pouca gordura, uma massa gloriosa (repara na foto, dela cortada) feita com alho (é claro), miolo de pão e carnes de porco e frango, coisa fina, nada daquelas sobras, tudo bem delicado, tudo bem saboroso e uniforme, uma delícia aos apreciadores desse embutido tão lusitano, que nos conduz diretamente ao Norte de Portugal, onde é produzida a iguaria. Foi com imensa alegria que descobri mais um ótimo lugar para comer uma boa alheira, como o Adegão Português e o Astor, que serve uma versão admirável, com fritas e ovo frito.
Gostei muito, mas era tarde, e queria voltar logo para casa para descansar. Ademais, três bolinhos de bacalhau e uma alheira é o suficiente para me matar a fome noturna. Fui embora, não sem antes curtir um belo e delicioso toucinho do céu.
Voltei ontem. Cheguei mais cedo. Até tinha decidido ir direto ao ponto, escolhendo logo o meu prato, que por sua vez já estava eleito desde a noite anterior: peixe (badejo ou linguado) à belle meunière. Mas quando o garçom perguntou se eu queria uns bolinhos de bacalhau para começar, foi impossível dizer não, de tanto que havia adorado a experiência da noite anterior.
Enquanto ele foi fazer o pedido à cozinha, escolhi o linguado, à belle meunière, com batatinhas cozidas, como manda a regra. Muita alegria. Chegou prontamente, no instante exato em que eu terminava os bolinhos.
Melhor ainda que os tais bolinhos de bacalhau foi depois deles provar um filé de linguado fresco e delicado, grelhado à perfeição, coberto com aquele molho clássico de manteiga, alcaparras e camarões, com toquezinho de alho e cheiro verde. Vez ou outra, umas gotinhas de limão davam uma bossa a mais. Sublime!
Quando o garçom trouxe a bandeja de docinhos (se não me engano, do mesmo pessoal que monta barraquinha no Cadeg), fui nos ovos moles, que estavam bons, mas podiam ser bem melhores.
Com todo o respeito à modernidade e às assessorias de imprensa, de tantos amigos queridos, mas eu adoro os restaurantes clássicos, sem recursos de marketing, plano de negócios e sem assessoria de impresa, desses que tem comida boa apenas, só isso. Como a Marisqueira.
Fui embora feliz nas duas noites com essa mariqueira carioca com inclinações ibéricas, que tanto me lembro a querida terrinha portuguesa. Acho que hoje vou almoçar no Rio Minho…
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Agora, o menu.
Os pratos individuais.
Couvert, entradas, peixes (os pratos são para dois e, quando está escrito “2p” serve até três pessoas)…
Carnes, sobremesas…
E os vinhos. Fique nos portugueses, por favor.
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