Katia Barbosa, do Aconchego Carioca, anuncia mais uma novidade: será o bar Calango, na Praça da Bandeira

20/12/2014

“As pessoas sempre chegam para mim dizendo que sou um cara de sorte. Que viajo, bebo os melhores vinhos e cervejas, como nos melhores restaurantes, e ainda sou pago para isso. Nem gosto de rebater dizendo que é tudo trabalho, que existem mil e uma obrigações etc etc etc. Digo apenas que a pessoa não entende mesmo o que faz o meu trabalho algo realmente interessante para quem, como eu, gosta de viajar, comer e beber. O que me faz sentir privilegiado são as pessoas que eu conheço. Viajar, comer e beber bem todo mundo pode. Se for caro, basta pagar. Se for longe, basta ir até lá. Se for um segredinho, basta ter boas fontes. Mas estar com pessoas como o Mikkel Borg Bjergsø… E ainda beber umas cervejas com ele…Isso não tem preço. Isso é que o que me faz trabalhar com um puta tesão, e agradecer por esse privilégio
http://riodejaneiroadezembro.wordpress.com/2014/12/07/um-dia-em-copenhague-de-uma-cerveja-com-mikkel-borg-bjergso-da-mikkeller-ate-um-jantar-no-relae/”
Foi com este texto que eu apresentei o post sobre um dia que passei em Copenhague. Resolvi reaproveitá-lo. Porque ele serve para falar sobre outras pessoas que a vida profissional e o apreço pelos prazeres de se compartilhar bons momentos à mesa me trouxeram. A Katia Barbosa, do Aconchego Carioca. Ela como capitã de um time de amigos que está incluído no pacote: sua filha Bianca, sua sócia Rosa, a “família Bar da Frente”, Valéria, mãe, Mariana, a filha; e mais os outros agregados, o Kadu Tomé, do Bracarense, e fotógrafo Berg Silva, minha amiga e ex-companheira de O Globo, a Marcella Sobral, e tanta gente legal. Um privilégio estar entre eles.
Especialmente quando se aproxima o Natal, e uma celebração das mais deliciosas e divertidas acontece na casa da rua Barão de Iguatemi. É a noite do Perupatolinha, cuja última edição, em dezembro de 2012, eu já relatei neste blog (para ler, clique aqui).
Mas vou resumir. Perupatolinha é a versão brasileira de uma receita típica dos Estados Unidos, para lá de doida, e até exagerada, como de fato gostam os americanos. Por lá, chama-se turducken (aglutinação de turkey, duck and chicken). Isso mesmo. Trata-se de um peru, recheado com um pato, e ambos recheados com um frango. O desafio foi lançado pela minha amiga querida Kamille Viola, jornalista de O Dia. E a Katia topou fazer. O trio de aves formando quase um rocambole vai ao forno. No nosso caso, com batatas, que absorvem os caldos do cozimento, ganhando sabor e textura cremosa. Para dar um tempero brasieiro, uma farofinha untuosa e rica, com um toque de passas brancas.
Pois ontem foi a noite do Perupatolinha. Um programa que eu classifico como “o único evento imperdível no meu calendário”. E foi aquela farra de sempre.

Aconchego Carioca 1 - almofadinha de queijo
Os petiscos celestiais foram fazendo afagos no estômago. E a cerveja da casa, a Electra (que também foi assunto de post) ia molhando a goela. E esta almofadinha de queijo, com sua delicada massa de tapioca, regada com a pimenta Samba do Crioulo Doido, bem forte, um perigo, foi um dos pratinhos compartilhados pela turma.
E é sempre nessas horas que acabamos tendo acessos a informações em primeira mão. Foi assim, só para ficar no ambiente do Aconchego, quando revelamos que a Katia Barbosa queria abrir um boteco com comida brasileira (para ler, clique aqui). Ela falava do Comedoria, que também fomos um dos primeiros a ir conferir: para ler, clique aqui (post que, aliás, está bombando, com centenas de acessos por dia, que chegam via ferramentas de pesquisa como o Google). Agora, temos outra novidade em primeira mão. No começo do ano que vem, talvez em fevereiro, talvez em março, abre as portas ali pertinho, também na Praça da Bandeira, mais uma casa da chef. Vai se chamar Calango, e terá cardápio de sanduíches.
– Vão ser sanduíches brasileiros. Carne assada, pernil. Vou fazer de carne-seca com cebola. Porcoburger, cachorro-quente. Quero cobrar preços legais. Tipo entre R$ 10 e R$ 15. O lugar é pequeno, e as mesas e cadeiras serão feitos com latões. Tudo muito simples – adianta Katia Barbosa, que vai reverter metade da renda do lugar para projetos sociais. – Vou doar para entidades que já trabalhamos, como o projeto Gastromotiva – diz.
A farra rolou no pátio, e chegou a chuviscar, dando um alívio no calor. Enquanto a boa música embalava as conversas idem, o povo ia chegando.

Aconchego Carioca 2 - katia e bianca
A estrela da noite foi servida por mãe e filha, para delírio dos paparazzi. Mas voltou pro forno, ainda precisava de mais tempo.
Mais bolinhos, Electras…

Aconchego Carioca 7 - Perupatolinha

… e chega o Perupatolinha, desta vez no ponto.

Aconchego Carioca 6 - Perupatolinha

E a turma foi ao delírio. Repare nas três carnes. A de pato, no meio, mais escura, no ponto, ainda ligeiramente sangrenta, e extremamente macia.
E a bagunça, que começou às 19h, chegou ao fim pouco depois das duas da madrugada. Uma bela festinha de despedida e confraternização. E que, de quebra, ainda nos deu uma notícia em primeira mão. Alguém por acaso duvida que o Calango será um sucesso?
Eu, não.

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A loja da Lego em Copenhague: ponto turístico lúdico para pais e filhos

17/12/2014

Quando era criança eu tinha lanchas, fazendas, castelos, vários carros. E até um lindo circo. Forte Apache, com índios e soldados. Não estou mentindo. Não era um sonho infantil. Quer dizer, até era. Momentos lúdicos. Eu viajava o mundo. E viajava nas historinhas que criava. Brincando de Playmobil. Os bonecos foram criados na Alemanha em 1974, e logo viraram febre mundial, alegrando e divertindo crianças, como eu. Porém, 50 anos antes, na vizinha Dinamarca, foi inventado o que é – para mim – o mais incrível brinquedo da História. Tão bom que é capaz de agradar pais e filhos.
E assim, com a minha pequena (cada vez menos) Maria eu passo horas montando carrinhos, casas, aviões… Lembro da minha própria infância. E criamos cidades, que ficam às vezes por semanas montadas na mesa da sala, com direito a prefeitura, com a prefeita fazendo discurso na sacada, salão de beleza, academia de ginástica, clube… E uma bela praça central. A gente viaja e se diverte.

Lego 4
E neste processo a Lego se transformou em uma das marcas mais queridas e admiradas por mim. Já tinha visitado algumas lojas exclusivas nos EUA (hoje são mais de 20 no país, e nenhuma ainda no Brasil), como aquela mais famosa, em Downtown Disney. Mas beber direto na fonte tem sempre um sabor especial. E como contei rapidamente no post sobre o último dia em Copenhague, fui até lá ver a loja, na charmosa área de pedestres. Na entrada, um painel mostra todas as logomarcas da empresa, desde a sua criação, há 80 anos, em 1934.

Lego 5
O lugar é como um ponto turístico, repleto de visitantes, muita gente que vai até lá, inclusive, apenas para ver a loja, tirar fotos.

 

Lego 1

Há várias montagens bem interessantes, desde amostras de alguns brinquedos até a reprodução de paisagens, como esta que mostra a área de Nyhavn, a mais graciosa vizinhança da capital dinamarquesa, um cais com construções coloridas que teria sido a fonte de inspiração para a criação do Lego.

 

Copenhague - Nyhavn 3

(E veja só como as janelinhas, e o tipo de construções, apresentam os mesmos padrões do brinquedo)

Voltemos à loja. Eu fui atendido por uma simpática vendedora boliviana, e hablamos por muito tempo.

Lego 2

- Recebo muitos brasileiros aqui. O pessoal gosta, porque só em lojas como esta são vendidos certos brinquedos, produzidos em edições limitadas. E aqui também estão os lançamentos. É divertido ver pais e filhos entusiasmados, comprando, falando do brinquedo com alegria – contou a moça.

Lego 3

Um desses itens exclusivos era esta caixa aí, edição de Natal, com Papai Noel, Mamãe Noel, renas, duentes, a fábrica de brinquedos… Muito legal. Custava 549 coroas dinamarquesas, ou seja R$ 275 (o câmbio é muito fácil, um real vale duas coroas).

E assim, com lembranças infantis, um passeio lúdico e deixando o espírito natalino tomar conta do blog, encerro a série de postagens sobre Copenhague (depois quero organizar todas as histórias em um único post, com links levando até eles).

Mas ainda tem muita história sobre a Dinamarca para contar, e aos poucos elas estarão em revistas, jornais e sites bem perto de você.

 

A despedida de Copenhague passeando por dois clássicos: Nyhavn e smorrebrod, claro

11/12/2014

 

 

No último dia em Copenhague, o sol vou a brilhar no céu da Dinamarca. Raridade nesta época do ano de pouca luz, muito frio e chuva fina constante. Pela manhã fui dar uma caminhada, aproveitar a luz bonita do sol matinal, nas proximidades do hotel, pelas ruas de pedestres da área central da cidade. Não saí andando a esmo, tinha endereço certo: a loja da Lego. Para quem é fã do brinquedo, como eu, que me divirto por horas e horas com a filha montando casas, carros e bonecos, inventando lugares e situações, visitar a loja da Lego em Copenhague tem um sabor especial. Porque a marca nasceu ali, há 80 anos. Tão bacana para mim estar ali que vou fazer um post à parte, ok?

Lego 1
Deixo hoje apenas a foto de uma das montagens que enfeitam a loja, de Nyhavn, vizinhança simpática, de prédios baixos e coloridos, que teria inspirado o criador do brinquedo (as janelas são absolutamente idênticas, como veremos um pouco abaixo, neste post).
Voltei para o hotel para encontrar o Diego Fabris, dos Destemperados, que voltava de uma escapada de final de semana até Berlim.

Copenhague 1
Saímos caminhando em direção a Nyhavn.

Copenhague 2

Mas – felizmente – no meio do caminho havia um mercado de Natal. Aquele perfume de vinho quente nos convidou para uma espiada. E havia uma barraca de cachorro quente altamente interessante, com um grande movimento de comensais.

Copenhague 3

Chamava a atenção, e espalhava um cheiro gostoso pelo ar, uma brasa forte assando  salsichas e pães dispostos sobre uma grelha redonda, presa por correntes, que ficava ali girando sobre o calor do fogo. Por que não? Dos muitos que comi, foi o melhor cachorro quente de minha viagem.

Copenhague 4

Pedi a versão com salsicha branca – uma linguiça da melhor qualidade que transbordava do pão para os dois lado (tem o dobro do tamanho). Espalhei mostarda por cima. E só. Uma bela refeição.

Copenhague 5

Seguimos com destino a Nyhavn, caminhando pelas ruas de pedestres da área central de Copenhague, onde é possível gastar facilmente mais do que um dia, ao sabor de sua boa coleção de bares e restaurantes, como este café estilo art déco que me chamou a atenção, além de uma seleção de lojas que mistura grandes grifes estrangeiras, de H&M e Loius Vuitton, passando por empresas locais, como a própria Lego e a Bang & Olufsen, além de pequenas marcas, com destaque para as vitrines dedicadas ao design, como móveis, objetos e galerias de arte.

Copenhague 6
Chegamos ao cais passando pelo lindo hotel d’Angleterre, o mais tradicional da cidade, cuja fachada…

Copenhague 7

… e o estilo muito bem me lembrou o bom e velho Copacabana Palace.

Copenhague - Nyhavn 1

Nyhavn pra mim é dos lugares mais charmosos que já.

Copenhague - Nyhavn 7

 

Um dos conjuntos arquitetônicos mais graciosos e fotogênicos do planeta.

Copenhague - Nyhavn 12

Não entendi bem porque, acho que um misto de enfeite e algo utilitário, todas as áreas externas estavam sendo cercadas com fardos de feno. Fica bonito, e segundo creio serve para barrar o vento forte que sopra por lá. Detalhe que, neste época, ali também funciona um mercado de Natal.

Copenhague - Nyhavn 11

Do outro lado do canal, está o Noma.

Copenhague - Nyhavn 10

Na ponte também há cadeados prendendo o amor eterno de casais apaixonados, essa nova mania mundial que deve estar enriquecendo a Papaiz…

Copenhague - Nyhavn 8

Há cisnes nadando…

Copenhague - Nyhavn 13

… e quando o sol bate deixa tudo mais bonito, aquece as cores das fachadas, dá brilho e alegria a este lugar agradável.

Copenhague 8
Demos uma volta por ali, lamentando o fato de estar fechado o restaurante Geist, um dos mais bem recomendados da cidade, comandado pelo chef Bo Bech.

Copenhague 9
Mas o Diego havia baixado um bom aplicativo, um guia de restaurantes da cidade, e buscamos um endereço próximo para um almoço (o cachorro quente foi só um aperitivo). E assim encontramos o tradicional Ida Davidsen, casa dedicada à maior especialidade da cozinha nórdica, o smorrebrod.

Copenhague 12
Entramos no salão lotado, e nos acomodados em uma mesa apertada.

Copenhague 14
A casa não tem cardápio em papel. Ou, se tem, é desnecessário. Todos os pratos do dia estão montados na entrada, em um balcão refrigerado.
O cliente chega e vai até lá, acompanhado pela garçonete, que explica as combinações de ingredientes, e de fato todas parecem boas.
Pedi para ela uma indicações, quais seriam as suas preferências pessoais. Ela acabou me indicando dois, com mais ênfase. E acatei as suas sugestões.

Copenhague 17
Primeiro, um interessantíssimo e delicioso smorrebrod de enguia defumada, com sabor marcante, combinado com espinafre, ovos mexidos e cogumelos salteados.

Copenhague 11
Para acompanhar, pedi mais uma bela cerveja natalina de produção local, a Julius (acho que entre as edições de Natal foi a que eu mais gostei).

Copenhague 16

Fizeram um belo par.

Copenhague 19
O Diego foi num peixinho empanado com molho de ovas, com aspargos verdes e camarões, que tive o prazer de provar, e aprovar.

Copenhague 20
Depois, a segunda sugestão de minha garçonete de traços orientais: camarão, lagosta e ovo. Simples assim.

Copenhague 23

Delicioso em toda a sua pureza. Para ele, mais um aquavit, edição de Natal, com 47%. Minha boca já sofria o impacto do frio, e estava “queimada”, como se diz. O aquavit ardia os lábios. Mas era muito bom. E tinha, como se sabe, ação bactericida. ;-)

Copenhague 24
Já a segunda escolha do Diego foi uma composição com pato, repolho roxo e batatas, praticamente um prato germânico em formato de smorrebrod.
Para para um café, e para roubar o sinal da internet (muito e-mail pra responder), em uma cafeteria.

Copenhague 26

E logo já estava anoitecendo.

Copenhague 27

E fomos caminhando pelas ruas de pedestres até o Torvehallerne, o principal mercado da cidade, criado em 2011, já no embalo do momento de alta da cozinha nórdica (que eu já havia visitado no meu primeiro dia de viagem).

Copenhague 29

E ainda passamos por mais um daqueles tentadores, bonitos e perfumados mercadinhos de Natal.
O Torvehallerne consiste em duas caixas de vidro repletas de boas lojas de alimentos e bebidas. Tudo muito bonito e vistoso, um ótimo programa. Mas falta um pouco de alma. São poucos lugares para se comer, a maior parte dos boxes vende comida, e vinhos, destilados e cervejas, para serem consumidas em casa mesmo.
Um vacilo imperdoável foi descobrir, enquanto tomávamos a saideira, um pouco mais tarde, que ali ao lado do Torvehallerne está o bar Mikropolis, a mais nova investida do grupo Mikkeller, dedicado aos drinques e cervejas (são dez torneiras, e uma boa lista de garrafas, e alguns coquetéis são feitos com a bebida de cevada).
Minha saideira foi uma cerveja que pude bebido durante a viagem outras vezes, mas sempre em garrafa. Provar assim, on tap, é para mim sempre muito mais gostoso. E foi deste modo que disse tchau para Copenhague. Com uma vontade – e a certeza – de voltar.

Comedoria: novo bar de Katia Barbosa abre as portas no Leblon pronto para o verão carioca

10/12/2014

Comedoria 3
Vou interromper a série sobre Copenhague para dar uma notícia extraordinária, de interesse geral da nação carioca, e – por que não? – brasileira. É novidade fresquinha, e pra lá de promissora.
Abriu as portas na quinta-feira passada o bar Comedoria, nova jogada da craque Katia Barbosa, do Aconchego Carioca, seguramente uma das novidades mais aguardadas do ano na gastronomia do Rio de Janeiro.

Comedoria 1
O Comedoria é o casamento de dois ícones da cidade: o bar Belmonte, de Antônio Rodrigues, e o Aconchego Carioca da Katia Barbosa, que agora chega ao Leblon: o restaurante fica na rua Rainha Guilhermina, na quadra da praia, na esquina com a General San Martin. E desde já se apresenta como uma das melhores pedidas para aquela tão gostosa botecada pós-praia que tanto o carioca gosta.

Comedoria 4
Meu voo de Copenhague chegou ao Rio às 19h30. Saí rapidamente do aeroporto, cheguei em casa, tomei um belo e reconfortante banho frio, e parti para lá, para conhecer a novidade. Não só por ser um bar novinho em folha, e por ter a comida da Katia. Mas também porque eu cheguei com fome de cozinha brasileira. Smorrebrod é muito bom, eu adoro salsichas, cachorro-quente e hambúrguer, mas andava com saudades dos nossos quitutes. Muita saudade.

Comedoria 2
O lugar é arejado, janelões de vidro com cortininhas, uns tecidos pendentes do teto, mesas típicas de botequim cobertas toalhas de papel, daquelas pro povo desenhar, cadeiras de madeira. No fundo, o bar, com as geladeiras de portas de vidro exibindo as cervejas. Pra beber, a propósito, o foco são as cervejas e as cachaças.

Comedoria 6

Fotos em uma parede relembram momentos da Katia com outras colegas de profissão.
Do Aconchego Carioca, o único prato que faz parte do menu são os bolinhos de feijoada, um dos acepipes mais celebrados do Brasil na última década (e não sem razão).
Da cozinha saem pratos que viajam pela cozinha brasileira, mas tratados com a costumeira verve criativa da Katia, prestando homenagens a chefs de todo o Brasil. Tem o jiló do Claude. E se vinho, Thomas Troisgros, é homenageado com o sanduíche de barriga de porco na cebola puxada na cerveja escura, sua bebida preferida. Já o paraibano Onildo Rocha foi a fonte de inspiração para a criação do nhoque de veijão verde, enquanto Alex Atala é o cara de um prato que todo mundo faz em casa, mas que nunca vi em restaurante: feijão com macarrão.
Candidato a estrela é o camarão no coco com purê de baroa. E a rabada prensada com agrião (homenagem ao chef Paulão). No final deste post, deixo o cardápio da casa, e basta clicar na foto para ela abrir em tamanho maior e legível.

Comedoria 7
A Katia cuidou com carinho do menu, criado ao longo dos últimos meses, quando ela anunciou (neste post aqui) este novo projeto, inclusive já usando a palavra “comedoria”. Sua mão certeira para criar bolinhos resultou em outra bênção: o de rabada. Foi a minha primeira – e certeira – pedida.

Comedoria 8
O bolinho é sequinho, e denso, com a carne desfiada. Comer este croquete de rabo de boi, sozinho, é bom. Mas ele só alcança mesmo grau de excelência quando usamos um poderoso recurso servido ao lado: é o glorioso vinagrete de banana, que dá grandeza e profundidade ao prato, com o seu caráter agridoce, o que fica ainda (muito) melhor se regado com a (boa) pimenta da casa, que está sobre todas as mesas.

Comedoria 10
Depois, fui no sanduíche que homenageia Thomas Troisgros, que tinha um naco de barriga de porco coberta com cebola ligeiramente caramelizada na cerveja Therezópolis Ebenholz. Carne deliciosa, e a cebolano ponto certo. Boa comunhão entre eles. Mas o sanduíche estaria um pouco melhor se o pão tivesse sido levemente tostado, ganhando aquela casquinha mais dura e queimadinha, como manda o figurino dos melhores hambúrgueres, e assim o miolo não teria ficado encharcado e mole como ficou. Mas em termos de sabor, nota 10. Simples e delicioso.
Para acompanhar, pedi, é claro, a própria Therezópolis Ebenholz, uma bela cerveja escura, no estilo, Munich Dunkel, e não poderia mesmo haver melhor pedida para este sanduba suíno.
Logo antes de chegar o sanduíche e a cerveja, avistei o Fabio Codeço, da Veja Rio. E acabei me sentando ao lado dele. Ele provou metade do meu sanduíche. E eu pude dar um confere em dois dos seus pedidos. Um chamado cápsulas de aipim com queijo, brilhante bolinho em formato coquetel, pra gente comer como se fosse pipoca. Foi difícil ser educado e não ficar petiscando na mesa do amigo até aquilo terminar.
Ao menos, ao lado havia o bolinho de moqueca (homenagem ao chef Juarez Campos), outra bela sacada da Katia, petisco que eu vislumbro ter um futuro brilhante pela frente.
Pedi licença. Porque me deu uma baita vontade de ir até o Herr Pfeffer, ali perto, na rua Conde Bernardotte. Tipo intuição.

Mikkeller

Chegando lá, encontro amigos, como o Fabio Santos e o Cadinha. Papo ótimo, muita Dinamarca no assunto. Acabei provando, entre outras coisas, como sempre acontece por lá, cervejas que eu ainda não conhecia, como as que a Mikkeller (para ler o post sobre esta cervejaria, clique aqui) fez exclusivamente para o mercado brasileiro, esta bela APA com brett, fresca e perfumada, com este rótulo simpático, braços abertos sobre a Guanabara.
Cheguei com tudo. E o Comedoria também. Vida longa e ele. E que esse interesse do Mikkeller pelo Brasil, e do Brasil pelas cervejas mais azedinhas, e de fermentação espontânea, como muitas das que ele faz, também permaneçam crescendo.
Amanhã voltamos à Dinamarca, para o último dia dessa viagem deliciosamente fria e cervejeira. E depois continuamos com a nossa programação normal. Ou seja, Rio de Janeiro, viagens, bares e restaurantes, vinhos e cervejas, praias e montanhas, cidades e roças.

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Agora, o cardápio (clique na foto para ampliar).

Comedoria - menu 1

Da cozinha.

Comedoria - menu 2

E do bar.

 

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Um domingo frio e legal em Copenhague ao sabor de dogão, hambúrguer e pizza

09/12/2014

 
Depois de cinco dias de agenda intensa (sempre digo que viagem de trabalho é que nem rapadura: é doce, é bom, mas não é mole), acordei preguiçosamente no domingo. De tal modo que quase perdi o café da manhã do meu hotel em Odense, o Plaza. Cheguei às 10h30, e ao contrário do que acontece geralmente nos hotéis da Dinamarca, que interrompem o café no horário determinado, não importando se ainda tem alguém por lá, eles me perguntaram gentilmente se eu ainda queria algo mais, depois de ter feito um pratinho de salada de frutas com iogurte e granola, para compensar a esbórnia dos últimos dias. Com toda a preguiça que merecemos em um domingo chuvoso (depois do sábado de sol, a chuva voltou, com insistência), parti para a estação de trem, e ao meio-dia segui em direção a Copenhague.
Cheguei pontualmente na hora programada, às 13h15, pegando o trem que faz a viagem diretamente (depois da Estação Central ele estica até o aeroporto). Decidi, então, seguir a dica do Paulo André Pomerantzeff, gerente da marca Faxe no Brasil.
– Cara, tem um cachorro quente em frente à estação central de trem muito bom. Pode ir lá conferir, você que curte comida de rua vai gostar.

Copenhague 2
Dito e feito. Havia um movimento intenso, e não parava de chegar gente para um almoço ligeiro. Escolhi uma entre cerca de 10 opções de chachorro quente (e mais uns quatro hambúrgueres) – e ainda tem gente que come apenas a linguiça, com a mão mesmo, lambuzando em mostarda e ketchup.
– Vai querer completo, com tudo?

Copenhague 5
No melhor estilo podrão da madrugada, pedi a versão integral do sanduba. De fato estava muito bom o sanduíche, temperado com maionese, mostarda e ketchup, com picles de pepino, cebola picada e uma espécie de bacon, dando um crocante legal. Uma linguiça da melhor qualidade que transbordava do pão para os dois lado. Não sou fresco. Comi, gostei. Mas uma coisa me intrigou. O sujeito que preparava o sanduíche, trabalhador solitário naquele trailer – simpático até apesar de seu jeito rude – recebia o dinheiro, dava o troco, e com a mesma mão pegava as salsichas para meter no pão. Achei nojento. Mas que estava bom, isso lá estava…

Copenhague 7
Dali até a minha morada nas duas últimas noites em Copenhague, o ótimo Hotel Imperial, eram cinco minutos de caminhada. Mas com chuva e frio, pareciam 20.

Copenhague 8

Deixei as coisas no quarto, amplo, confortável e moderno, e fui decidir o que fazer. Com o clima hostil, frio e muito chuvoso, não era um dia para grandes explorações urbanas (ainda que o metrô, com estação bem em frente ao hotel, cubra boa parte da cidade). Então, decidi combinar duas coisas que ando muito apreciando ultimamente: cerveja, tema principal desta minha viagem, e hambúrguer). Seguindo orientação da concierge do hotel, escolhi a cervejaria Apollo, por quarto razões principais. Inaugurada nos anos 1990, foi pioneira na produção artesanal de cerveja no país. Especializada em carnes, tinha fama de fazer um ótimo hambúrguer.

Copenhague 11

E ainda por cima, ficava no Tivoli, com entrada independente, voltada para o lado de fora, sem precisar comprar ingresso. E o Tivoli ficava pertinho do hotel.

Copenhague 13
Aquele vento cortante me acompanhou até lá, com chuva suficiente para molhar a minha mochila. Ao chegar lá, bem ao lado da entrada principal, aquela sensação de acolhimento, ainda mais quando vi as duas caldeiras de cobre que ficam bem no meio do salão.

Copenhague 20

 

Lugar simpático, de decoração simples, com muita madeira, uns metais, vidro valorizando o céu e o trânsito das pessoas na rua, o que aumentava ainda mais a sensação de conforto vendo todo mundo bem agalhasado, e você ali, de camisa e casaquinho.

Copenhague 12
Tinha que escrever um texto, então, pedi uma Pilser para matar a sede (frio dá muita sede, porque o corpo gasta muita energia para manter a temperatura, o que também dá muita fome). Ah, se toda a Pilsen no Brasil fosse assim…

Copenhague 14

Depois, fui na edição natalina, em cartaz durante este mês, escura, encorpada, saborosa, estilo que passei a viagem inteira experimentando, de diferentes cervejarias.

Copenhague 18
Texto pronto (infelizmente não havia Wi-Fi), era hora de comer. Fui no hanburguér clássico, que foi devidamente escoltado por uma Red Ale bem lupulada, que eu classificaria como uma IPA em uma prova às cegas. Carne no ponto certo, muito saborosa. Um bom cheddar inglês derretido. Uma espécie de molho de tomate, de primeira. E ainda meti ali o trio maravilha, mostarda, ketchup e maionese. Já anoitecera completamente, e eram 17h, o que – como já escrevi – jamais vou me acostumar, do mesmo modo que com o sol da meia-noite, que ainda não tive o prazer de conhecer.
Como sobremesa, pulei o doce, e pedi uma (ótima) stout de encerramento, cheia de café, caramelo e chocolate.
Voltei para o hotel. Precisava de internet para responder e-mails (estar três horas à frente do horário brasileiro é uma vantagem e tanto para quem viaja com demandas de trabalho) e subir o post que escrevera no bar.

Copenhague 10
Simpatizei com o restaurante L’Apetitto, junto ao lobby. Sentei no bar e me pus a trabalhar, e trabalhar, e escrever, e editar fotos, e responder mensagens…

Copenhague 24
Os garçons eram todos italianos, e só se comunicavam entre si na língua natal, o que me soou muito simpático. Fui curtindo o clima, com direito a fotos em preto-e-branco: Marlon Brando me olhava de modo ameaçador.

Copenhague 21
Logo o salão começou a encher. Dei uma espiada no salão. Lotado, com direito a mesas grandes, com muitas famílias. Confesso que o Trip Advisor não está entre as minhas fontes, normalmente, mas dei só uma checada, para ver se meu jantar deveria ser mesmo ali, como me dizia minha intuição, e como praticamente me impunha o clima lá fora. Quase todos os comentários eram elogiosos: falavam das pizzas, das massas, das carnes, do serviço a la italiana (havia quem reclamasse da demora, e do estilo dos garçons). Bati o martelo. Decidi jantar ali mesmo. Terminei meus afazeres, e pedi uma mesa.
Cardápio atraente. Bem típico. Li inteiro, e terminei na dúvida: pizza marguerita ou lasanha à bolonhesa? Escolhi a primeira. Acho que domingo combina com pizza. Eu e a torcida do Flamengo, eu sei. Apesar de que uma bela lasanha à bolonhesa também combine. Aliás, cozinha italiana combina com qualquer dia.

Copenhague 23

Pedi um Montepulciano d’Abruzzo, bem simples, para acompanhar. Tive um jantar agradável. A pizza estava boa. Nada que tenha me emocionado, mas era tudo o que eu precisava naquela noite fria. Era grande, e nem consegui chegar até o final.
Subi para o meu quarto contente e satisfeito. Bati na cama, e apaguei na hora. Sonhei com a minha casa. bateu saudade inconciente na madrugada. Ainda bem que segunda seria o último dia. E este post, o penúltimo da série (será?), escrevo no avião da KLM que me leva de volta ao Brasil (fiz escala em Amsterdã, partindo de Copenhague). Amanhã, dia 10, encerro escrevendo sobre o dia de despedida, segunda-feira, já sob as bênçãos do Dedo de Deus, e temperado pela alegria de estar de volta ao meu aconchego serrano.
Então, vamos voltar a falar um pouco do Rio de Janeiro, assunto principal deste blog, e de vinhos, tema que acabou vindo para cá com o final da Enoteca.
Porque agora só pretendo voltar a viajar no final de janeiro, curtindo as festas de final de ano e as férias escolares na maior tranquilidade, e não faltam novidades por aí.

De volta a Odense: mercado de Natal, smorrebrod e um incrível bar de cervejas (e destilados)

08/12/2014

Odense 5
Embora tenho tido pouco tempo para passear pela cidade de Odense, quando estive lá, na quinta-feira passada, eu curti a cidade, com prédios bonitos, e muita coisa para ver, para fazer, para comer e para beber. Então, voltei no sábado, fazendo como muitos moradores de Copenhague, que vão até lá para passar o final de semana. Peguei um trem na estação central e em menos de duas horas estava lá (e era parador, se for direto a viagem demora 1h15). A cidade estava lotada, com muita gente nas ruas, bares e restaurantes. Até o sol abriu para saudar o sábado. E pela primeira vez na vida vi que o sol dinamarquês é belo, uma luz que na diagonal aquece a paisagem, e dá cor e brilho a ela.

Odense 1
Cheguei e fui dar uma voltinha pela cidade, passeando por áreas que não tinha visto no sábado. Mas antes passei no hotel, o Plaza Odense (esse aí da foto: simpático, não?), pertinho da estação de trem, para deixar as malas.

Odense 7

Andando pela área central vi lojas de vinho espetaculares, como a HJ Hansen, que tem formidável seleção de cervejas, e outras bebidas, além de ser uma baita delicatessen.

Odense 8

Ao lado, como uma extensão, uma área é inteiramente dedicada aos queijos, embutidos e carnes curados. Os dois espaços merecem uma visita.

Odense 3
Um lugar bacana para compras, com muitas lojas. Tinha até uma H&M, mas o bacana mesmo eram as lojas de roupas nórdicas, para frio, e aquelas com produtos alimentícios. Muita coisa gostosa eu vi.

Odense 11
Almocei no restaurante Kong Volmer, famoso pelos seus smorrebrods e também pelo brunch. Estava lotado.

Odense 12

E eu acompanhei a minha refeição com uma cerveja local que eu já tinha provado, N 16, feita na ilha (Odense está em uma ilha), além de um bom aquavit, inspirado na tradição local (é a melhor companhia para os pratos frios…

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…com camarões, salmões e outros peixes).

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O restaurante fica no complexo chamado Brandts, uma imensa e antiga fábrica de tecidos desativada, convertida em uma espécie de centro cultural e de entretenimento, com muitos bares, restaurantes e lojas, e até um pequeno museu, Time Collection, onde encontramos a reprodução de ambientes de quase todas as décadas do século passado, dos anos 1910 a 1980.

Odense 10

Bem legal.
De lá, segui caminhando, até encontrar um animado mercado de Natal, ao lado de um centro cultural municipal muito bacana, onde aconteciam uma série de atividades, com artesãos fazendo trabalhos à maneira antiga, inclusive um sujeito fundindo soldadinhos de chumbo (como já disse em outro post, Hans Christian Andersen nasceu em Odense, orgulho maior da cidade).

Odense 17

Quando acontece o mercado de Natal, que começou na sexta, a feira que acontece aos sábados é deslocada para as ruas laterais, tornando o programa ainda mais rico. Além das barraquinhas, há vários artistas de rua, …

Odense 18

…e espetáculos circenses.

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E o realejo diz que eu serei feliz.

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Durante a minha investida vespertina, passei na charmosa Vintapperstræde, uma rua de pedestres, onde eram os fundos do comércio local.

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Quase escondida, numa fachada discreta, estava o bar Christian Firtal, um verdadeiro achado. É um lugar multietílico.

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Torneiras de chope são 20, só coisa fina, numa seleção variada com ênfase nas dinamarquesas. Uísque? Devem ser uns 40, com bons preços. Que tal um Laphroaig pelo equivalente a R$ 23? Rum é outro destaque, com uns 30 rótulos. E o quadro negro que exibe a seleção de bebidas da casa ainda tem um monte de destilados: marc, calvados, pastis, cognac, armagnac… Só marcas muito bem escolhidas. O lugar é pequena, e estava mais que lotado, com um monte de gente de pé. Encontrei até o meu vizinho de mesa do almoço, bem embriagado. Porque nesta época o povo aqui bebe pesado, e são muitas e muitas festas, todos os finais de semana, até chegar ao Natal.

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Saí para jantar no Kren Kok, para um menu desgustação muito bem harmonizado, uma cozinha com pegada francesa usando ingredientes locais. Comi maravilhosamente.
E hoje acordei com toda a tranquilidade do mundo (estava precisando, depois de seis dias insanos, incluindo os preparativos de viagem, a entrega de vários frilas e a produção de outros, e mais as quatro noites – e cinco dias – aqui, com programação intensa). Finalmente, em Odense, eu relaxei.

Um dia em Copenhague: de uma cerveja com Mikkel Borg Bjergsø, da Mikkeller, até um jantar no Relae

07/12/2014

 

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Na sexta-feira a agenda foi intensa. O dia chuvoso começou de maneira ácida e azeda, com uma visita ao escritório da cervejaria Mikkeller, para um bate-papo com Mikkel Borg Bjergsø, um dos mais cultuados mestres da movimentada cena da produção artesanal, autor de algumas dos melhores rótulos que já bebi na vida, e talvez o principal expoente da febre das sour ales, e outros estilos do gênero, craque na fermentação espontânea e na utilização de báctérias. Não vou entrar em muitos detalhes, porque a entrevista foi feita para uma reportagem que estou escrevendo, e que em breve eu compartilho por aqui. Para tudo ficar ainda melhor, me acompanhou no programa o amigo gaúcho Diego Fabris, dos Destemperados, ótimo companheiro de viagem, com quem dividi essa grande experiência.
Mas o fato é que foi mesmo incrível passar com ele uns 45 minutos, falando sobre esses assuntos. No final, quando nos despedíamos, ele perguntou se não queríamos beber uma cerveja. Como eu ia perder essa oportunidade?

Copenhague 1
Então, ele buscou uma cerveja feita com 50% de vinho de cereja, Mikkeller Spontan Cherry Frederiksdal, maturada em barricas de Chardonnay, e produzida na Bélgica em parceria com a Proef Brouwerij.
– Este é o melhor vinho da Dinamarca, de cereja. Misturo ele à cerveja, e então há uma nova fermentação.
Ácida, cheia de fruta, perfumada, é uma cerveja para enófilo nenhum colocar defeito, e numa degustação às cegas certamente se passaria por um vinho. Delicioso. Leve, fresco e delicado.

Copenhague 2
Então, ele nos serviu a base do preparo dessa receita, que leva 50% do vinho de cereja e 50% de cerveja. Primeiro, serviu o vinho, sozinho, que me lembrou muito um Porto Ruby jovem, com aquela característica explosão de frutas com final adocicado. Depois, a cerveja – a Hues 2014 – que recebeu o vinho de cereja para nova fermentação. Bela cerveja. No final, misturou ambas no copo. E nós fizemos o mesmo.

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Ficou bem, mas a outra a cerveja original me pareceu mesmo melhor, mais intensa e integrada. Grande momento.

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Se fui eu que consegui a entrevista com Mikkeler, o Diego Fabris retribuiu descolando informações sobre uma feirinha de comida de rua, uma obsessão que ele cultiva no momento, e eu também.

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Debaixo de uma chuva fraca, mas insistente, cruzamos a cidade, observando coisas que fazem de Copenhague um lugar legal, cheio de bossa, como este bar às margens do canal, com direito a sauna e DJ.

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Atravessamos até chegarmos ao espaço, imaginando que possivelmente a gente estava se metendo na maior furada, uma vez que comer comida de rua debaixo de chuva não é dos programas mais apetitosos. Mas, chegando lá, a surpresa: era uma feirinha indoor, com direito a containers do lado de fora, com lareira.

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Lá dentro, mais lareiras, muitas mesas espalhadas e uma ótima seleção de lugares para comer, com perfis bem variados.

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Tinha desde um churrasqueiro gaúcho…

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…a cozinha mexicana (o trailer da direita vende tacos), passando por um bar cubano,…

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…outro sul-coreano, outro italiano (à direita), uma pizzaria, e ainda um sushi bar (à esquerda) , uns três bares de cerveja, um bar de drinques sólidos, feitos com nitrogênio líquido, uma casa de hambúrguer, e uma outra com variações marinhas do sanduíche (de salmão, e outra do tipo surf ‘n’ turf, com camarões e carne bovina, e muitos outros estabelecimentos mais).

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Havia um trailer de carne “65 horas”: marinada 24 horas; com mais 11 de sous vide e 30 do preparo do molho.

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Tudo bem bonito e charmoso, e isso vale para o ambiente  e para a comida, perfumada, apetitosa, em suas várias diferentes sugestões.
– Os caras fizeram uma boa curadoria. Os lugares são bem diferentes. No Brasil, às vezes essas feirinhas têm comidas muito parecidas – observou, com razão, o Diego.
Sem falar no charme do lugar. Chegamos por volta de 14h. E, quando o relógio apontava 16h, olhamos para fora. Estava escuro, e chovia ainda mais forte. Não tem jeito, vou sempre estranhar um dia que amanhece às 8h e que escurece às 16h. São apenas 8h com luz natural, e uma luz bem fraquinha, ainda mais em um dia chuvoso como aquela sexta. E no auge do inverno, em janeiro, pode tirar aí, no barato, mais meia hora de sol pela manhã e mais meia hora de tarde.

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No tempo em que estivemos lá, comemos cachorros-quentes,…

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… hambúrgueres e um prato de carne picante com arroz, da barraca sul-coreana. Pra beber, cervejas e snaps. Tudo bom, mas nada emocionante. Mas com preços mais em conta que no resto da cidade, em estabelecimentos regulares (como é caro tudo aqui).
Saímos por volta das 17h, na mais completa escuridão; então, pegamos um barco para cruzar um canal, e encurtar o caminho.

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Desembarcamos na área de Nyhavn, o principal cartão-postal de Copenhague (ao lado da miúda estátua da Pequena Sereia), um cais apertadinho e comprido, com casinhas coloridas de quatro ou cinco andares, um dos lugares mais charmosos e fotografados da capital dinamarquesa.

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Paramos em um bar de jazz e cervejas, o Pale Bar, mas nem consumimos nada, uma vez que lá dentro é permitido fumar, o que torna o ambiente, mesmo que charmoso, algo insuportável (e fiquei imaginando que até uns 10 ou 15 anos atrás era assim em qualquer bar e restaurante do mundo). Mas adorei a logo.
Pegamos um táxi para voltar ao hotel, já que chovia e fazia frio. Vi que existe trânsito na Dinamarca. Chegamos ao hotel, e bebemos algumas cervejas do Hans Christian Andersen (que foi parte do post de ontem: para ler, clique aqui). Depois, fomos até o bar da Mikkeller, onde havíamos estado na noite anterior (absolutamente imperdível) para nos encontrarmos com o Giba, brasileiro boa-praça, que é representante da marca no Brasil (agora importada pela Interfood, que nos últimos anos apostou no mercado de cervejas especiais, e hoje tem uma linha ampla, variada e de qualidade). Pena que não pudemos ficar muito tempo.
Pena nada. Tínhamos uma reserva para às 21h30 no Relae, do chef Christian Puglisi, que trabalhou no Noma, um dos tantos restaurantes que vão seguindo o rastro de René Redzepi, revolucionando a gastronomia nórdica, e mundial, e transformando a Dinamarca em referência atualmente, com essa pegada orgânica e natural, com os ingredientes nítidos, muitas vezes crus, com preparações delicadas, e receitas saudáveis, em sua maioria. Mas não posso falar muito também, mas o jantar é a base de uma outra matéria que vou escrever, e não posso estragar a surpresa.

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Mas resumindo: além de pratos de execução primorosa, tive uma noite gloriosa também por conta da harmonização, precisa, surpreendente e ousada, que a sommelière da casa (ótima mesmo) nos proporcionou, servindo vinho puros, finos, elegantes e sinceros, como este Mucadet, do Domaine de la Paonnerie, o incrível ‘Rien que Muscadet. Sem falar no meu companheiro de mesa, gente da melhor qualidade para se dividir uma refeição, que teve até risotinho com trufas brancas, de Alba, claro.
Voltei para o hotel para uma saideira com o resto da turma que me acompanhou nesta viagem, um dos melhores grupos com os quais eu já viajei, quando reencontrei amigos como o próprio Diego e a jornalista Letícia Rocha, que voltou da Itália para editar a revista da Have a Nice Beer, e para trabalhar em uma produtora de vídeo que, entre outros projetos, também faz filmes para a Wine.Com (e também para a HNB, comprada por eles).
Fiquei pensando: sou mesmo um cara de sorte, e hoje sinto a vida fluindo tranquila, com muitas coisas boas acontecendo ao mesmo tempo. O ano de 2015 promete, e eu conto com a ilustre companhia de vocês nesta jornada.

Odense: fui, gostei, voltei

06/12/2014

Odense 4
Existe uma certa magia ao redor da cidade de Odense. Esse encantamento, em grande parte, chama-se Hans Christian Andersen, o grande escritor, autor de muitas da mais famosas histórias infantis, como “A Pequena Sereia”, “O Patinho Feio” e “Soldadinho de Chumbo”. Sujeito importante na vida de qualquer criança, e por consequência de todo mundo.

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A casa onde ele nasceu foi transformada em museu.

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Na verdade, a pequena morada de sua família é apenas parte do grande complexo, que narra a vida do artista de múltiplos talentos, que desenhava postais de suas viagens,…

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… como este de Florença, …

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… e fazia delicados recortes, como os que estampam o rótulo da cerveja que leva o seu nome, produzida pela Albani, uma das 12 cervejarias da cidade, a uma hora de trem, ou duas de carro, a partir de Copenhague. Uma boa escapada de final de semana para quem visita a capital da Dinamarca.

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Fui até lá para visitar a fábrica, onde é produzida  linha de cervejas  Giraf.

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Curti continente e conteúdo.

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Razão pela qual a chaminé foi pintada como se fosse o pescoço do animal.

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Delicioso foi provar a cerveja diretamente do tanque, ainda não pasteurizada, com envolvente frescor.
Na cidade funciona um dos restaurantes mais antigos do mundo, o Den Gamle Kro, de 1683.É bom reservar com antecedência. Não conseguimos mesa, o que não foi qualquer problema, porque o almoço no restaurante Gronttorvet Odense, foi um dos pontos altos da viagem até agora.

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O restaurante charmoso e com ambiente acolhedor fica no centro antigo da cidade, bem como o museu HCA, exatamente onde começa a funcionar hoje um simpático mercado de Natal.

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Foi um banquete regional dignos da realeza. Comecei com mais uma deliciosa cerveja natalina, produzida pela Albani.

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Logo foram servidas as primeiras entradas, arenque em diferentes preparações: marinado, confitado em manteiga, empanado e frito, tudo com cebola cortada finamente, umas folhinhas, e servidos com uma espécie de maionese condimentada com curry e um belo pão preto.

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Fica uma delícia com um bom aquavit.

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Depois, um linguado delicioso, daqueles de tamanho pequeno, bem empanado, com limão e molho tipo rémoulade,…

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… além deliciosos ovos cozidos, cortados em meio, lambuzados com maionese e coroados com pequenos camarões cozidos, com um potinho de caviar no meio para a gente jogar por cima.

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Em seguida, almôndegas de porco, das melhores almôndegas que já comi na vida, com um patê quente de fígado, coberto de bacon e molho de cogumelos, servidos com fatias de pepino e repolho.

 

Odense 16

Close no patê.
Fiquei achando que essa cozinha do interior da Dinamarca, que parece ter sido preparada por uma avó boa de cozinha, reconfortante e saborosa, tem muito a ver com a culinária russa que encontramos no restaurante Dona Irene, em Teresópolis (veja se não é, clicando neste link, e neste aqui também). Não só pelos sabores, mas principalmente pelo formato de banquete, longo, que começa com arenque e saladas, pela preparação do ovo com caviar, o molho de cogumelos com creme de leite que é primo do estrogonofe… Acabei me sentindo em casa.

Gostei de Odense, e voltei para passar o final de semana. Hoje, escrevo este post exatamente no trem, que me leva para lá, numa viagem tranquila de uma hora e meia.

 

Suco de cevada: ele existe, e parece melado de cana

05/12/2014

Você já bebeu suco de cevada? Mas, não, não falo de cerveja, ou alguma bebida outra bebida alcoólica. Na verdade, o nome oficial é suco de malte. Mas, se o malte é de cevada, por consequência… É suco de cevada. Não conhecia o produto, que faz muito sucesso em países africanos (e onde há colônias expressivas de imigrantes do continente), principalmente, e também no Caribe, na Colômbia e na Venezuela , onde é usado como energético. Fui apresentado a ele ontem, numa visita à fábrica da cerveja Faxe, na cidade de mesmo nome, a cerca de uma hora de Copenhague.

Faxe 3
Um dos rótulos tem DNA bem brasileiro: é o Vita Malt Plus, feito com açaí, guaraná e aloe vera. Em tempo: açaí eles chamam de acai, sem o cedilha e o acento.

Faxe 5

Além desse, provei outro, o Supermalt Original, a versão clássica, o que valeu mesmo pela curiosidade: não é um produto para o meu bico. Muito doce e viscoso, lembra melado. Eu não bebo melado, mas acho que na cozinha é algo que pode ser usado com sucesso. Mas não imagino que algum dia seja algo que vá chegar ao Brasil.

Faxe 2
O que vai chegar ao Brasil, em março, é um lançamento mundial da marca, uma Witbier que segue o estilo clássico, com coentro e casca de laranja, de olho no gosto do brasileiro por este estilo, que aliás tem tudo a ver com o nosso clima, e que tão bem combina com mariscos, de uma maneira geral, e com receitas asiáticas picantes da cozinha asiática feitas com pescados.
– O Brasil é visto por nós como um mercado-chave. E depois de avaliar a resposta lá, o produto pode ir para outros lugares. Mas o lançamento é exclusividade do Brasil. Identificamos essa necessidade no país -conta Jan Ankersen, responsável pela área de exportação da Unibrew, dona da Faxe.
A cerveja será vendida na tradicional lata de um litro, marca registrada da Faxe, que capricha no desenho.
– A marca voltou ao país a partir de 2010 quando eles viram que uma garrafa vazia era vendida no Mercado Livre por R$ 30, já que sempre são feitas edições especiais, artísticas, e que viram objeto de coleção – completa Paulo André Pomerantzeff, gerente da marca Faxe no Brasil.
Porque quando o assunto é cerveja, a beleza também é fundamental. Quem nunca comprou uma cerveja (ou vinho) só porque simpatizou com a embalagem?

Para entrar logo no clima local, smorrebrod de arenque, snaps e cerveja

04/12/2014

Smorrebrod 1
Cheguei anteontem pouco depois do meio-dia em Copenhague. Fiz um check-in ligeiro no hotel Scandic, moderno e bem localizado, nas franjas do centro antigo da cidade, ao lado do Parque Tivoli e da Estação Central de trens, cercado por bons bares (incluindo o Mikkeller) e restaurantes. Para já me aclimatar ao país, fui logo almoçar em um restaurante clássico da cidade, o Aamanns, especializado em smorrebrod, os famosos sanduíches abertos tradicionais dos países nórdicos. Fiz uma excelente escolha. Mas não é bem um lugar barato: cada porção custa entre R$ 50 e R$ 60 (os praços variam entre 100 e 120 coroas dinamarquesas, que valem cerca de o dobro do nosso real).

Smorrebrod 2

 

Fui caminhando tranquilo, passando por dentro do belo (ainda mais no outono) Ørstedsparken.

Smorrebrod 6
Pedi uma cerveja local, e fui pedindo informações a respeito. Era uma ale amarronzada e encorpada, bem saborosa, de produção local, e artesanal. Vendo o meu interesse pelo assunto, ele me ofereceu uma degustação de snaps, os aguardentes aromatizados com frutas, ervas e raízes também típicos da região.

Smorrebrod 5

Um era de alcaçuz, outro de pão (sim, de pão) e o terceiro uma edição de Natal, feita “com muitos ingredientes, entre ervas, temperos e frutas”, explicou o garçou. (E, aliás, como esse povo gosta de celebrar o Natal aqui. Os pratos do período já começam a ser servidos agora, os mercados natalinos estão em várias partes, e além do snap especial, as cervejarias também fazem as suas edições especiais de Noel, receitas mais alcoólicas e encorpadas, de cor acobreada).

Smorrebrod 3
O cardápio (que posto no final deste texto) era pura sedução. Dava vontade de provar de tudo. Pedi indicações ao garçom, que me recomendou duas, com mais entusiasmo: a combinação de arenque frito (“Arenque frito é típico do Natal”, informa o cordial rapaz) com uma espécie de tartare de abóbora, com gomos de laranja, alcaçuz (outra obsessão nacional por aqui) e creme fresco, tudo isso sobre um pedaço fino de pão preto.

Smorrebrod 7

Uma maravilha. O peixe, a combinação de ingredientes, a apresentação. Provei com a cerveja, e ficou bom. Mas certamente é um prato para ser acompanhado por um belo copo de snap. Casamento perfeito.

Smorrebrod 8
A outra recomendação foi o tartare de carne bovina com emulsão de ostras e uns pedacinhos crocantes de pão. O que ele não disse era que o prato levava, ainda, umas ovas amareladas de peixe, bem pequenas, que davam um teor salino e marinho ao prato, decorado com belos e saborosos trevos.
Mesmo com vontade de provar todas as demais receitas (e degustação, de 390 coroas, ou R$ 195, só é servida para um mínimo de duas pessoas. Pena.

Smorrebrod 10

Então, fui explorar outro lugar imperdível para o viajante com interesse na gastronomia (e por acaso tem brasileiro, hoje, que visite a Dinamarca sem ser um apaixonado pelo tema?). Sim, o mercado Torvehallerne (impossível pronunciar corretamente na língua deles).

Smorrebrod 11
O mercado, criado em 2011 já na esteira do sucesso da cozinha da Dinamarca, é aquela festa para os olhos de alguém que curte a boa mesa. Para os olhos, a boca, o nariz… Há muitas lojas de produtos da região, açougues,…

Smorrebrod 13

… enoteca especializada em vinhos naturais, queijaria, chocolateria, cafeteria e algumas rotisserias de vitrines vistosas (dá para comer por lá, ou fazer um belo piquenique, o que não recomendo nesta época do ano), e até uma filial da Olive & Co (que para mim pareceu meio deslocada ali), entre outras. Além disso, há alguns bares com balcões onde podemos nos sentar oara comer. Nem tudo ali, neste caso, é nórdico: tem casa de tapas (pereciam ótimas) e pizzaria (idem), por exemplo.

Smorrebrod 14

Mas, para ficar no clima local, escolhi a Hallernes Smorrebrod, cuja vitrine que exibia a oferta de comidinhas da casa me pareceu muito apetitosa. Além disso, já sabia que ali é servido cerveja Mikkeller “on tap”. Uau!
Sentei na cadeira alta. Puxei papo com o atendente sobre a Mikkeller. Muito prestativo, o cara começou a me indicar bares e restaurantes próximos ao meu hotel (fui muito bem tratado aqui em todos os lugares, mas depois me disseram que fui um ponto fora da curva, que geralmente os garçons e semelhantes não são lá os mais cordiais).
Ali também havia uma versão de arenque frito (“É típico do Natal”, disse-me o que já sabia),…

Smorrebrod 15

…outra com rosbife, picles de pepino, cebola crocante uma chuvinha de raiz forte.

Smorrebrod 16

Na verdade, havia mais do que uma versão de arenque, uma delas com salada de ovo.

Smorrebrod 18

Falando em ovo, outra especialidade é a combinação de ovo fatiado finamente com pequenos camarões cozidos, muito tradicional. A propósito: não sei de que ovo se tratava, porque era maior que o de codorna, e menor que o de galinha.

Smorrebrod 19

Confesso que não foi fácil escolher, mas fui na salada de frango com cogumelo, seduzido em grande parte pela lâmina crocante de bacon que enfeitava este smorrebrod. Fiz bem.

Smorrebrod 20
Contente naquele balcão, ainda pedi uma bela cerveja local de produção artesanal, a AZ Ale No 16, bem maltada, com pouca carbonatação, num estilo que chegou, para mim, perto de uma barley wine.
Voltei para o hotel satisfeito e aclimatado, andando pela área central (e antiga), com as suas ruas de pedestre enfeitadas para o Natal. Foi uma estreia feliz em terras e mesas dinamarquesas.


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